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Restrições a repórteres põem em questão liberdade de imprensa em Ferguson

DEU NO O POVO Online

(Deutsche Welle) – Enquanto violência escala na cidade, jornalistas são alvos de detenções e medidas restritivas por parte das autoridades na cobertura dos protestos. Criticada por ONGs e mídia, polícia alega questões de segurança. A Guarda Nacional dos Estados Unidos foi mobilizada para a cidade de Ferguson, no estado do Missouri, mas se mantém longe dos principais palcos dos protestos. A polícia tenta assumir com mão de ferro o controle da situação, resultante da morte a tiros do afro-americano Michael Brown, de 18 anos e desarmado, por um policial branco. A ação repressiva tem tido consequências também para o trabalho da imprensa.

Frank Herrmann, do jornal alemão Rheinische Post, e Ansgar Graw, do Die Welt,  foram presos enquanto cobriam os protestos em Ferguson - Foto: Reprodução
Frank Herrmann, do jornal alemão Rheinische Post, e Ansgar Graw, do Die Welt, foram presos enquanto cobriam os protestos em Ferguson – Foto: Reprodução

Nos últimos dias, diversos jornalistas têm sido impedidos de apurarem livremente sobre a situação na cidade. Um fotógrafo da agência Getty Images que registrara os protestos foi temporariamente detido. O mesmo ocorreu com repórteres dos jornais Washington Post e Huffington Post. Uma equipe de TV da emissora árabe Al Jazeera foi atacada com gás lacrimogêneo, segundo informações da polícia.

Leia também: Governo convoca Guarda Nacional em Ferguson para conter a violência

Na segunda-feira (18/08), três jornalistas alemães foram levados algemados e detidos por algumas horas pela polícia. Eles teriam supostamente resistido à ordem policial de não permanecerem parados numa rua aliás, vazia. Os profissionais pretendiam registrar imagens do posto de gasolina saqueado e incendiado na última semana.

Estratégia policial

As regras para manutenção da segurança pública em Ferguson preveem que transeuntes isolados se mantenham em movimento caso não se encontrem numa “zona organizada de protesto”. “Esse é um método que as autoridades dos EUA têm empregado repetidamente nos últimos dez a 15 anos”, explica Gregory Magarian, especialista em direito da Washington University em St. Louis. “Elas tentam concentrar os manifestantes numa área fechada, a fim de fazer impor a lei mais facilmente.”

Ansgar Graw e Frank Herrmann estão entre os jornalistas da Alemanha presos temporariamente. Graw, correspondente do diário Die Welt, afirma que a polícia impediu a ele e a outros jornalistas de realizarem seu trabalho. “Isso é uma violação gritante da liberdade de imprensa”, critica. Herrmann, que trabalha para alguns jornais regionais, classificou como “totalmente absurdas” as justificativas das prisões, que segundo ele visariam intimidar os jornalistas.

RSF: “Inaceitável”

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A ONG Repórteres Sem Fronteiras considerou inaceitáveis as detenções/Foto: Reprodução

“A detenção de jornalistas só é legalmente admissível se a polícia se encontra diante de uma situação de emergência”, diz Gregory Magarian, que se especializa em liberdade de imprensa. Isso não se aplica apenas a jornalistas, aliás. E, desse ponto de vista, nenhuma das prisões de representantes da imprensa em Ferguson foi lícita. “Há muitos casos em que a polícia fica de mira nos jornalistas. E não só enquantoestes realizam seu trabalho, mas sim porqueeles fazem seu trabalho.” Isso é uma violação da Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de imprensa, lembra Gregory Magarian.

Ele comenta que os protetores da lei em Ferguson e do condado de St. Louis viviam aparentemente numa bolha, sem perceber que percepção os cidadãos dos EUA e do mundo inteiro tinham suas ações: “Não sei o que precisa acontecer para que essas pessoas entendam que aquilo que fazem parece horrível para muita, muita gente.”

Em Berlim, o escritório alemão da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) criticou duramente as prisões recentes, denominando-as “totalmente inaceitáveis”. “Nós exigimos que os repórteres possam realizar seu trabalho em Ferguson sem terem medo de detenção, ou mesmo de que se atire neles.” Nas proximidades da cidadezinha no Missouri, nesta quarta-feira, ocorreu um novo incidente fatal. No norte de St- Louis, policiais mataram a tiros um afro-americano de 23 anos que supostamente estava armado com uma faca.

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Governo convoca Guarda Nacional em Ferguson para conter a violência

DEU NO G1

(AFP) – O governador de Missouri, Jay Nixon, ordenou nesta segunda-feira (18) a mobilização da Guarda Nacional para ajudar a polícia a restabelecer a ordem na cidade de Ferguson, abalada há vários dias por distúrbios relacionados com a morte de um jovem negro em uma ação policial. Os protestos e a violência não param em Ferguson desde que, em 9 de agosto, um policial branco matou a tiros o jovem negro Michael Brown, de 18 anos, que estava desarmado. No domingo (17) à noite, a polícia usou gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar manifestantes que saqueavam lojas. Os oficiais também foram alvos de ataques com coquetéis molotov e tiros.

“Diante dos atos violentos deliberados, coordenados e cada vez mais enérgicos contra pessoas e bens em Ferguson, ordeno que a Guarda Nacional de Missouri ajude a polícia a restaurar a paz e a ordem na comunidade”, anunciou o governador. As escolas locais anunciaram a suspensão das aulas em Ferguson nesta segunda em consequência da “violência em algumas áreas e no interesse da segurança dos estudantes e das famílias”.

Domingo

Manifestação em Ferguson_Foto Lucas Jackson-ReutersOs protestos pacíficos de domingo foram “abalados por atos de violência criminal, obra de um grupo organizado e crescente de indivíduos, muitos deles procedentes de fora da comunidade e do estado do Missouri”, destacou Nixon em um comunicado. Entre os atos criminosos registrados horas antes do toque de recolher diário a partir da meia-noite, Nixon citou tiros contra a polícia, tiros contra um civil, o uso de coquetéis molotov, saques e uma tentativa coordenada de bloquear estradas.

De acordo com Ronald Johnson, novo chefe de polícia de Ferguson, os atos foram resultado de uma “agressão preparada”. O policial afirmou em uma entrevista coletiva que pelo menos dois manifestantes foram feridos a tiros, mas não revelou o número de detenções. “Estávamos protestando pacificamente quando começaram a usar gás lacrimogêneo do nada. Sei o que é gás lacrimogêneo, o rosto ardia”, disse Lisa Williams, ex-soldado do exército americano.

Presença do governo federal

Diante da violência crescente, o governo federal decidiu ter mais envolvimento na investigação. Nesta segunda-feira o secretário de Justiça, Eric Holder, informará ao presidente Barack Obama sobre a violência em Ferguson, anunciou a Casa Branca. “Nosso objetivo imediato é garantir a segurança dos moradores de Ferguson, o fim dos saques e do vandalismo, e que as pessoas que vivem na comunidade confiem que a justiça será feita”, afirmou uma conselheira de Obama, Valerie Jarrett.

Agentes do FBI estão interrogando testemunhas do tiroteio que matou Michael Brown. O Departamento de Justiça anunciou no domingo que solicitará uma segunda necropsia do cadáver de Brown, em consequência das “circunstâncias extraordinárias” de sua morte. Duas investigações estão em andamento sobre o caso e as controversas circunstâncias de sua morte. Uma é coordenada pelas autoridades locais e a outra pelo FBI. A polícia afirma que Brown morreu depois de reagir de forma agressiva e resistir à detenção. Mas Dorian Johnson, que acompanhava Brown quando ele foi baleado, afirmou que o jovem foi atingido quando estava com as mãos para o alto.

De acordo com o jornal ‘New York Times’ (NYT), que teve acesso a um relatório preliminar de uma necropsia solicitada pela família do jovem, Brown recebeu pelo menos seis tiros. O corpo de Brown apresenta dois tiros na cabeça e quatro balas no braço direito, segundo o NYT, que cita o médico Michael Baden, responsável pela análise.

A polícia divulgou uma gravação de um roubo ocorrido 20 minutos antes da detenção e morte de Brown, que mostra um jovem negro com altura similar à vítima roubando maços de cigarro em uma loja. A família se declarou “escandalizada” com o que considera versões manipuladas divulgadas pela polícia para, segundo denuncia, tentar ‘responsabilizar a vítima e desviar a atenção’.

*Fonte: France Presse via G1/Mundo