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Roberto Santos, um homem exemplar

Por Sérgio Gomes*

A vida física, infelizmente, tem prazo de validade. Isso vale para todos, mas deveria ser diferente para alguns, aqueles que contribuem para um mundo melhor, com ética, respeito ao próximo, e honestidade de propósitos. Mas, alguns, verdadeiramente, ficam para sempre, como Roberto Figueira Santos.

Permanecerá pelo legado de retidão e caráter tão difícil de encontrar em homens públicos. Dono de um currículo impressionante, Roberto Santos foi um político diferenciado para o padrão brasileiro. Ouvi uma vez, de importante comentarista nacional, o falecido Carlos Castelo Branco, que o Dr. Roberto deveria ser político na Suécia ou na Suíça. Comparava Roberto ao paulista Herbert Levy, também um homem público diferenciado.

A Bahia foi premiada por haver tido esse homem notável, e preparado, como governador. Realizou a melhor e mais profícua administração pública estadual, sem qualquer mácula de desonestidade na sua primorosa gestão. Tratava o emprego dos recursos públicos com probidade, ciência e exatidão.

Dirigiu o estado sem as arrogâncias e os arroubos que estiveram tão em voga, por um tempo, na vida pública baiana. Jamais perseguiu quem quer que fosse, por mais provocado que tenha sido. Tinha sempre uma postura altaneira, corajosa e firme. Nas escadarias do Palácio da Aclamação manteve o presidente Figueiredo, por longos momentos, dois degraus abaixo, com o braço firme que denotava o seu descontentamento com o general.

Em entrevista ao jornal O Globo teve a independência de afirmar que o regime militar se esgotara e que já estava na hora da mudança, antecipando, de certa forma, o futuro movimento das Diretas Já. Fora do poder, aliou-se às forças que perseguiam a redemocratização do país, como Waldir Pires, Rômulo Almeida, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, gestores da Nova República.

Sua maior e importante obra, no Governo da Bahia, foi a implantação do Polo Petroquímico, em Camaçari, empreendimento que, por si só, coroaria toda uma gestão. Outra obra muito importante foi o Complexo de Pedra do Cavalo, no rio Paraguaçu, que garantiu, por essas últimas e, pelas próximas décadas, o abastecimento de água na Região Metropolitana de Salvador.

Antenado com a preservação ambiental, Roberto Santos criou o Parque Metropolitano de Pituaçú, sem dobrar-se à imensa pressão realizada pela indústria imobiliária que preferiria lotear a área verde para a construção de prédios residenciais e comerciais.

Espírito liberal e de visão social avançada, liberou os terreiros de candomblé do jugo e da permissão de funcionamento por parte da Secretaria de Segurança Pública. Nomeou, para a Prefeitura de Salvador, um negro, o professor e advogado tributarista Edvaldo Brito. Criou a primeira Secretaria de Comunicação, demonstrando o seu apreço às atividades de jornalismo e marketing político.

Por outro lado, a sua amada mulher e companheira, a saudosa Maria Amélia Menezes Santos, promovia um amplo trabalho em prol da cidadania, dirigindo um vasto programa de inclusão social, provendo documentação civil para muitos milhares de cidadãos até então invisíveis.

Tive a honra de fazer parte do secretariado desse homem exemplar no Governo da Bahia. Fui escolhido para acompanha-lo em todas as viagens nacionais a Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e outros rincões. Pude assim conviver com aquele homem de hábitos simples e cuja importância jamais lhe subiu à cabeça.

Uma vez, depois de irmos a reunião no BNDES, caminhamos pela avenida Rio Branco, no Rio, pois ele me disse que precisava buscar uma encomenda. Chegamos a uma sapataria de portugueses. Assim que chegou o dono do negócio gritou para o andar superior:

— Tragam o sapato do “seo” Roberto Santos.

O gajo nem imaginava que fazia sapatos sob medida para o governador da Bahia. Ele não dizia e muito menos eu o fazia. Talvez por isso ele gostasse de viajar comigo.

De outra vez saíamos de uma entrevista noturna à Tv Educativa, do Rio, e ele, que ainda não havia jantado, pediu para o motorista parar numa loja de lanches do Bob’s, onde comemos hamburgueres, quase na madrugada. Ao invés de ir a um fino e caro restaurante, o governador da Bahia preferiu comer em pé num balcão.

Esse era Roberto Santos.

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*Sérgio Gomes é jornalista e foi Secretário de Estado de Comunicação Social

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)

ABI BAHIANA

ABI emite Nota de Pesar pela morte do professor Roberto Santos

A Associação Bahiana de Imprensa soma-se a todas as instituições e pessoas enlutadas com o falecimento do ex-governador Roberto Figueira Santos, também ex-reitor e ex-professor da Universidade Federal da Bahia. Neste momento de despedida, necessário lembrar e reconhecer a trajetória honrada de um baiano que, ao cumprir longeva e profícua existência terrena, inscreve seu nome entre os maiores dos filhos desta terra.
Por todos os feitos, como intelectual e como político, pelo filho reverente, que teve os primeiros passos iluminados pelo pai, igualmente ilustre e marcante professor Edgard Santos, e soube iluminar a sua família, constituída com D. Maria Amélia Menezes Santos, oferecendo-nos, também, um exemplo dignificante de esmerado pai de família; pela forma sempre respeitosa com que se relacionou com os profissionais e empresas de comunicação social; pela visão acurada de estadista sobre o papel da comunicação pública, que levou à criação da Secretaria Estadual de Comunicação Social; pelo prestígio dado à ciência, em todas as oportunidades que a vida pública lhe ofereceu; pela grandeza de conhecer, com galhardia, os desafios de viver 94 anos; a Associação Bahiana de Imprensa (ABI-Bahia) expressa, neste momento de pesar, a sua gratidão ao professor Roberto Santos e solidariza-se com familiares e amigos, ao tempo em que firma o compromisso público com a memória deste grande baiano.

ABI BAHIANA

ABI entrega Medalha Ranulpho Oliveira a Gervásio Baptista em Brasília

Por Valber Carvalho*

Foto: Luiz Hermano Abbehusen

Numa cerimônia marcada pelo carinho, reverência e muita emoção, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) entregou no último sábado, 22/09/2018, ao lendário fotojornalista baiano Gervásio Baptista, 95 anos, a Medalha Ranulpho Oliveira, a mais alta homenagem prestada pela ABl a um profissional de imprensa que tenha exercido a profissão no estado.

Para realizar a cerimônia da entrega da medalha e do diploma a Gervásio Baptista, os diretores da ABI, Valber Carvalho e Luiz Hermano Abbehusen, que também é o presidente nacional da Arfoc (Associação dos Repórteres Fotográficos), foram até Brasília.

Leia também: ABI outorga medalha ao fotojornalista baiano Gervásio Baptista

No Espaço Sênior, um pequeno centro de convivência de idosos, na cidade de Vicente Pires, a 25 km do centro da capital federal, onde Gervásio Baptista está vivendo sua aposentadoria, compareceram antigos discípulos, experientes profissionais da imagem e do texto, que o tempo e a convivência transformaram em amigos do velho e corajoso mestre.

Prestigiaram a homenagem da Associação Bahiana de Imprensa representantes da ABI-DF, da Arfoc-BR, da Arfoc-DF e do Sindicato dos Jornalistas de Brasília e nomes de peso da fotografia e do texto jornalísticos.

Foto: Luiz Hermano Abbehusen

O evento foi ilustrado por um varal com 50 reproduções de fotografias de reportagens marcantes de Gervásio Baptista. Estavam lá, expostas para todos os presentes, algumas da peripécias desse ícone do Fotojornalismo do Brasil. Fotos e fatos que Valber Carvalho – autor da pesquisa ia explicando para jornalistas de imagens e de texto, enquanto a cadeira de rodas conduzia Gervásio, cujos olhos se inebriavam com o desfile das imagens que enriqueceram o fotojornalismo do Brasil em quase 80 anos em que seu dedo ágil registrou a nossa história.

*Valber Carvalho é jornalista e diretor da Associação Bahiana de Imprensa – ABI

Notícias

Homenagem: Morre aos 76 anos o jornalista baiano Carlos Alberto Caó de Oliveira

Por Fernando Alcoforado*

O ex-deputado federal Carlos Alberto Caó de Oliveira morreu neste domingo (4/2), no Rio de Janeiro, aos 76 anos. Caó era jornalista e advogado. Ele também foi um dos grandes militantes do movimento negro brasileiro, na luta contra o racismo. Viúvo, foi casado com Teresa Maria Sarno de Oliveira, com quem teve dois filhos. Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos (assim registrado no início da década de 1980, por razões de identificação política, em substituição ao nome de nascimento, Carlos Alberto Oliveira dos Santos) nasceu em Salvador no dia 24 de novembro de 1941, filho de Temístocles Oliveira dos Santos e de Martinha Oliveira dos Santos. Iniciou sua trajetória política aos 15 anos de idade em Salvador, quando se tornou secretário da Associação de Moradores do Bairro da Federação, cargo que exerceu de 1956 a 1959 e, ao mesmo tempo, se engajava na campanha nacionalista O petróleo é nosso.

Caó atuou também como uma das grandes lideranças do movimento estudantil da Bahia quando era chamado por todos que com ele conviviam por “Betinho” de 1958 a 1964. Foi vice-presidente do Centro Acadêmico Rui Barbosa, do Colégio Estadual da Bahia. Em 1960, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e, em 1962, foi eleito vice-presidente de intercâmbio internacional da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1963, no desempenho desta função, foi um dos organizadores do I Seminário Internacional dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido, realizado em Salvador.

No segundo semestre de 1963, assumiu a presidência da União dos Estudantes da Bahia (UEB), cargo que exerceu até 31 de março de 1964 quando ocorreu o golpe de estado que derrubou o presidente da República, João Goulart. Perseguido pelo regime militar instalado no país, Caó refugiou-se no Rio de Janeiro, onde passou a exercer a profissão de jornalista. Foi redator e editor político no jornal Luta Democrática até 1966 e trabalhou na Tribuna da Imprensa até 1968. Também trabalhou como tradutor na Editora Civilização Brasileira. Ainda em 1966, retomou o curso de direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde, em 1967, diplomou-se bacharel em ciências jurídicas.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez, em seguida, o curso de extensão em direito tributário e o curso de extensão em ciência política e administração da Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A partir de 1968, ainda no Rio de Janeiro, trabalhou em O Jornal e na TV Tupi, também como redator e editor político. Foi um dos fundadores e primeiro secretário-geral do Clube dos Repórteres Políticos, entidade criada para enfrentar a censura imposta pelo regime militar.

Em função das suas atividades no movimento estudantil na Bahia na década de 1960, respondeu a inquéritos policiais militares junto com outras lideranças do movimento estudantil, entre os quais o autor destas linhas. Em fevereiro de 1970, foi submetido a julgamento na 6ª Região Militar, em Salvador, sendo condenado a dois anos de prisão. Permaneceu preso nesta cidade por seis meses e 15 dias, tendo sido libertado por decisão do Superior Tribunal Militar (STM), que considerou a pena prescrita. Logo que foi libertado, retornou ao Rio de Janeiro. Demitido da TV Tupi desde o seu julgamento, continuou a trabalhar como jornalista, tendo sido forçado, contudo, a abandonar a área política. Assim, transferiu-se para a reportagem econômica, indo trabalhar no Jornal do Brasil e, em 1974, na revista Veja.

Para escapar do rígido controle exercido pelo regime militar sobre o noticiário econômico, organizou com um grupo de jornalistas, no início dos anos 1970, a Associação dos Jornalistas de Economia e Finanças (AJEF), tendo presidido a entidade no biênio 1975-1976. Em julho de 1978, elegeu-se presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, sendo reeleito em 1981, ano em que, a convite de Leonel Brizola, filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Disputou as eleições de novembro de 1982, obtendo a segunda suplência do PDT na Câmara dos Deputados. Assumiu o mandato parlamentar em março de 1983, licenciando-se, no mesmo mês, para exercer o cargo de secretário de Trabalho e Habitação do primeiro governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987).

À frente da Secretaria de Trabalho e Habitação foi responsável pela implementação do programa Cada família, um lote — uma política habitacional alternativa à do Banco Nacional de Habitação (BNH) e dirigida às classes menos favorecidas — e pela instalação de um plano inclinado nas favelas do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, no Rio de Janeiro. Permaneceu no cargo até 1986, quando foi novamente suplente na eleição para deputado federal constituinte, em novembro. Ainda em 1986, passou a integrar o diretório nacional do PDT.

Retornou à Câmara em janeiro de 1987, antes do início dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, em virtude da morte do deputado Giulio Caruso. Empossado como deputado constituinte em fevereiro de 1987, foi um dos poucos parlamentares negros a participar da elaboração da nova Constituição, consagrando-se pela aprovação da emenda Caó, posteriormente regulamentada pela Lei Caó, que tornou a prática do racismo crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão. Além desta, conseguiu incorporar aproximadamente mais 60 emendas à nova Carta. O direito de voto para cabos e soldados, a democratização dos meios de comunicação, a definição da ruptura da legalidade democrática como crime imprescritível e o amplo exercício do direito de greve foram alguns de seus projetos de lei homologados.

Participou dos trabalhos de elaboração da nova Constituição como titular da Subcomissão do Poder Executivo, da Comissão da Organização dos Poderes e Sistema de Governo; e, como suplente, da Subcomissão de Tributos, Participação e Distribuição das Receitas, da Comissão do Sistema Tributário, Orçamento e Finanças. Nas principais votações da Constituinte, pronunciou-se a favor do rompimento de relações diplomáticas com países de orientação racista, da limitação do direito da propriedade privada, do mandado de segurança coletivo, da legalização do aborto, da remuneração 50% superior para o trabalho extra, da jornada semanal de 40 horas, do turno ininterrupto de seis horas, do aviso prévio proporcional, da unicidade sindical, da soberania popular, do presidencialismo, da nacionalização do subsolo, da estatização do sistema financeiro, do limite de 12% ao ano para os juros reais, da proibição do comércio de sangue, da limitação dos encargos da dívida externa, da criação de um fundo de apoio à reforma agrária, da anistia aos micro e pequenos empresários, da legalização do jogo do bicho, da desapropriação da propriedade produtiva e da estabilidade no emprego. Votou contra a pena de morte e o mandato de cinco anos para o presidente José Sarney.

Com o fim dos trabalhos constituintes em outubro de 1988, assumiu, no ano seguinte, a presidência da Comissão de Trabalho da Câmara, coordenando a elaboração da primeira legislação salarial sob a responsabilidade do Congresso Nacional. Ainda em 1989, obteve a aprovação do Congresso para a concessão a Nelson Mandela, líder negro sul-africano que se destacara na luta contra o apartheid, da comenda Grande Colar — honraria concedida pelo Legislativo a estadistas e personalidades que se destacaram na defesa dos direitos humanos. Em junho de 1990, chefiou a primeira missão parlamentar brasileira à África do Sul, quando Mandela e sua esposa Winnie Mandela foram convidados a visitar o Brasil. Ainda nesse ano, foi eleito primeiro-vice-presidente da Comissão de Trabalho Administrativo e Serviços Públicos, denominação recebida pela Comissão de Trabalho após a incorporação de novas funções.

Candidato à reeleição no pleito de outubro de 1990, não foi bem-sucedido, deixando a Câmara dos Deputados em janeiro de 1991, ao final de seu mandato. Com o retorno de Leonel Brizola, em março de 1991, ao governo estadual do Rio de Janeiro, foi convidado a ocupar mais uma vez a Secretaria de Trabalho e Ação Social do estado. No exercício deste cargo, foi responsável pela restruturação do Sistema Nacional de Emprego do Rio de Janeiro (Sine-RJ). Na condição de presidente do Fórum Nacional de Secretários de Trabalho (Fonset), participou da coordenação da segunda fase da “Ação da cidadania contra a fome e a miséria e pela vida”, comandada pelo sociólogo Herbert de Sousa, o “Betinho”.

Em abril de 1994, Caó desincompatibilizou-se do cargo de secretário para candidatar-se ao Senado no pleito de outubro. Com setecentos mil votos, foi derrotado pelos candidatos Benedita da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Artur da Távola, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Em 1996, tornou-se secretário-executivo dos movimentos partidários do diretório nacional do PDT. Carlos Alberto Caó teve, sem sombra de dúvidas, uma vida política extraordinária seja no movimento estudantil na Bahia e na esfera nacional com a UNE, seja como parlamentar e como gestor público no Estado do Rio de Janeiro deixando a marca de seu compromisso com as melhores causas do Brasil, sobretudo a luta contra o racismo do qual foi um dos grandes baluartes. Na condição de amigo e companheiro de lutas desde as lides estudantis, deixo aqui registradas minhas condolências para os familiares e amigos de Carlos Alberto Caó.

*Texto originalmente publicado por Fernando Alcoforado (Facebook, 04 fev 2018), sob o título “Morre no Rio de Janeiro o grande baiano e ex-deputado federal Carlos Alberto Caó de Oliveira, aos 76 anos”.