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O dia em que anuns viraram faisões

Luis Guilherme*

Foi na manhã de 17 de setembro de 2021, no Memorial dos Mártires, no povoado de Pintadas, em Ipupiara, na Chapada Diamantina, no dia em que esse espaço sagrado e cívico seria palco da cerimônia pela passagem do 50º aniversário da execução dos militantes da resistência Zequinha [José Campos] Barreto (1946-1971) e capitão Carlos Lamarca (1937-1971). Estávamos sozinhos na ocasião, visto que o espaço está sem zelador e, a meu pedido, o pároco Márcio Benevides autorizara nosso ingresso pelo portão de serviços, que fora deixado semi-aberto.

Pedi a Ronrom – Romilda Tavares, esposa do autor – para ficar sozinho no espaço em que o capitão foi metralhado e, de repente, ouvi barulho no meio do mato esturricado. Vi então, em fileira, pássaros com calda longa e imaginei que frei Bertolomeu Gorges (1948-2021), que zelara pelo espaço nos últimos 10 anos, adotara aves ornamentais, tipo faisões, para emprestar ao local um certo ar paradisíaco, tipo Shangri-La. Ledo engano. Jamais, apesar das férias em fazendas, vira anuns caminhando em grupo e jamais me pareceram tão grandes como os vi naquele instante

Não consegui fotografá-los. Creiam, todavia, no que lhes digo.

O contraste entre anuns e faisões, naquele espaço fatídico, é que a crendice popular associa o canto do anum ao presságio da morte. Eles atravessaram, um atrás do outro, em silêncio e ali, a cerca de dois metros deles, mantive-me quase estático.

Enfim, 50 anos depois de mais uma barbaridade do Estado brasileiro, o que vi foram anuns como se fossem aves ornamentais.

Frei Gorges, de bermuda e camisa, ao lado da cruz que marca o local onde Lamarca foi metralhado.
Frei Gorges no local onde Lamarca foi metralhado, foto de 2018

Cenário desfigurado – Retornei ao local que visitara em 2018, onde fotografei Frei Gorges em meio à ambientação que emprestava mais impacto ao local onde Lamarca foi executado, e o que encontrei foi descaracterização. Já não havia as fotografias do capitão e de Zequinha, e a capanga, semelhante àquela em que Lamarca carregava mantimentos, estava esfarrapada, assim como as bandeiras. O pé de Baraúna está irreconhecível – o fotógrafo Anizio Carvalho, agora com 91 anos, e que esteve no local, em 1971, horas depois da execução, diz que a árvore era Juá Babão –. As fotos de 2018 e de 2021 não negam as alterações.

Local onde Lamarca tombou, foto de 2021

Há sinais de má conservação do Memorial dos Mártires, obra que foi edificada com recursos, sobretudo, oriundos do Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, outorgado, em 2009, por fundação alemã ao Frei Luiz Flávio Cappio, Bispo da Diocese de Barra (BA). A obra foi inaugurada em setembro de 2013. Antes, porém, em 2010, houve o 2º Fórum de Direito à Memória e à Verdade, ocasião em que a diocese contava com a parceria da ADECOP – Associação do Desenvolvimento Comunitário de Pintada –; da CASEF – Cooperativa Agromineral Sem Fronteiras –; do Instituto Zequinha Barreto, que tem sede em São Paulo; da Paróquia São João Batista, de Ipupiara; e das prefeituras dos municípios vizinhos, Brotas de Macaúbas e Ipupiara.

A perspectiva de dias melhores para o Memorial passa pela escolha, pelo Bispo de Barra, Dom Cappio, do substituto de Frei Gorges. O estado em que ora o conjunto sacro-cívico se encontra não é grave. Com correções das avarias, tudo retornará ao que era antes: espaço limpo, iluminado e de portas abertas. Nenhum dano haverá à estatuária, cujo destaque é aquela em que Zequinha carrega Lamarca nos ombros, nem às bandeiras e sequer à iluminação externa da área monumental.

Praça Capitão Carlos Lamarca – Se o Memorial homenageia mártires no plural, não sendo, portanto, monumento exclusivo a Zequinha e a Lamarca, isso não acontece com o logradouro do povoado de Pintadas em homenagem ao capitão executado na vizinhança. A obra é de 2007, na primeira gestão do prefeito Ascir Leite Santos, conforme estampa a placa inaugural. O logradouro está identificado com outras placas localizadas nos extremos opostos da praça, onde há o monumento ao capitão e o teatro-arena para pequenos espetáculos.

Estátua de Lamarca inaugurada em 2007

Não consegui identificar o autor da estátua, mas percebe-se que o artista não buscou ser fiel nem ao rosto nem ao corpo do esculpido. Ademais, o monumento permite a leitura de que Lamarca estaria caminhando num trampolim…

Que se preserve tudo como foi feito e que a História avalie o personagem homenageado e, também, que respeite a tantos que o enxergam como extremoso amante do nosso país.

Pintadas, pela manhã e pela tarde – Após nossa visita matinal a Pintadas, retornamos para Brotas de Macaúbas para mais uma refeição no Organoléptico, o restaurante de Mary e de Dadá (Aderbal). Logo em seguida, retornei a Pintada, em companhia da colega jornalista Thais Barreto, sobrinha de Zequinha, a cuja família, em 1971, o Estado brasileiro destinou bárbaro tratamento que resultou em mortes e pavor que até hoje ecoa na região. O avô de Thais, o já ancião José Barreto, foi colocado de cabeça para baixo, do lado de fora de helicóptero, em sobrevoo no povoado de Buriti Cristalino, onde a família vivia do garimpo.

Bandeira esfarrapada, no Marco dos Mártires

Fomos para a cerimônia religiosa no Memorial dos Mártires, de que participaram poucas pessoas, até porque vigia as regras sanitárias exigidas na pandemia. A missa foi concelebrada pelo bispo auxiliar de Oliveira dos Campinhos e pelos párocos de Brotas, Ipupiara e Buritirama. Comoveu-me a homilia do padre Welliton M. de Souza, de Brotas de Macaúbas, e as músicas cantadas e tocadas por Karina, Maria Cristina, Marta (violão) e Silvio (percussão). O culto foi acompanhado por moradores de Pintadas e contou com a presença do deputado estadual Jacó (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia.

A ausência do Bispo de Lapa, Dom Luiz Flávio Cappio, foi sentida, até porque ele esteve presente nas celebrações anteriores. Curioso a respeito, dirigi-me a ele por e-mail e ele, correto e generoso, me respondeu:

“Paz e bem!

Muito agradecido por sua comunicação. O senhor tem toda razão. Monsenhor Bertolomeu faz muita falta.

Pe. Márcio, pároco de paróquia de Ipupiara, faz o possível de cuidar do espaço. Falta-nos uma pessoa que, como Mons. Bertolomeu, assuma de ser o guardião do Memorial. Outra consequência da pandemia: Monsenhor Bertolomeu faleceu por consequência do estresse causado pela pandemia.

Embora muito desejasse estar, não me foi possível de forma alguma. Celebramos aqui na Barra, sede da Diocese, os 50 anos da morte de Zequinha e Lamarca.

Muito agradecido pela sua ida.  Acredito que outros também tenham sentido o mesmo que o senhor. Tudo isto faz parte de nossas limitações.

Com gratidão e estima,

+Frei Luiz”

Enfim, vamos respeitar os presentes e os ausentes e “amar o próximo como a si mesmo”.

Marco da celebração de 2010

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*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
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Reflexões sobre a pauta jornalística por Luis Guilherme Pontes Tavares

Nutro há tempo a curiosidade sobre a pouca importância que é dada à pauta jornalística. Não entendo a razão desse tratamento. A curiosidade tem crescido com o avanço e a popularização das novas tecnologias. Com elas, o pauteiro de jornal impresso, rádio, televisão e webjornal, caso fosse mais valorizado na hierarquia das empresas de comunicação, seria um dos profissionais melhor equipados e bem pagos. Em recente postagem do http://233grados.lainfacion.com/blog há a notícia de que a Universidade do Missouri (EUA) ministra desde março deste ano a disciplina Science Investigative Reporting: Drone Journalism, cujo objetivo é instruir alunos de jornalismo na utilização desse tipo de “veículos aéreos não tripulados”.

O pauteiro nota 10 dos dias de hoje teria que ser um profissional que dominasse inúmeras ferramentas de investigação. Teria que ser hábil no manejo do Google Earth, Webcams, Waze e assemelhados. Hábil na varredura dos milhares de blogs e sites afins com o objeto de interesse. Teria que manter uma rede viva de fontes, uma pelo menos em cada bairro da cidade, em cada município do seu Estado, além do olhar arguto e filtrante para transitar rápido no sem número de veículos nacionais e internacionais de notícia.

É lamentável que não haja nos cursos de comunicação alguma disciplina que trabalhe mais a formação do pauteiro. O treino se resume à prática laboratorial. Tampouco a pauta é tema de vasta bibliografia específica. É comum encontrá-la como parte de algum capítulo num livro mais geral sobre a rotina da produção jornalística. No entanto, com as novas tecnologias, o pauteiro tem que ser reinventado.

O banco de dados – textos e ilustrações – agora é online. Ali o pauteiro pode armazenar e consultar as pautas anteriores, ali ele pode constituir um banco de ideias para novas pautas, organizados, quem sabe?, por estação do ano ou com múltiplas possibilidades de resgatar cada uma delas: data, bairro, tema, relevância e assim por diante.

A pauta pode ser disponibilizada online para o repórter e acessada em micro, em smartphone ou em tablet. Ela pode ser enriquecida com links os mais diversos, de modo que o repórter possa chegar à fonte ou ao evento com substancial conhecimento a respeito.

Em 1989, na Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), enquanto cursava o mestrado em Ciências da Comunicação, apresentei na disciplina “Editando: da pauta ao layout” o trabalho “Rascunho da história da pauta jornalística no Brasil”. Há quase 25 anos, a pauta já provocava-me inquietação e sobre ela previ o óbvio: “O pauteiro, que utiliza com frequência o telefone e o telex, caminha rapidamente para utilizar o computador como equipamento do seu dia-a-dia, obtendo nomes, endereços, recuperando pautas antigas, consultando as sugestões de pautas adequadas para cada dia do ano e assim por diante. Nesse sentido as televisões já apressam o passo”.

Na ocasião conversara a respeito de pauta com dois jornalistas brasileiros da melhor qualidade: Armando Nogueira, então na TV Globo, e Paulo Patarra, naqueles dias na TV Cultura de São Paulo. Ambos situaram a década de 1950 como a época inaugural da pauta no jornalismo brasileiro. Avessos à pauta no jornalismo impresso, ambos arrefeciam a reação a ela no âmbito do jornalismo televisivo. No final da década de 1980, quando os entrevistei, já se tornara comum o posto de pauteiro-produtor na televisão brasileira.

É necessário que a academia e o mercado repensem o papel fundamental que o pauteiro pode exercer na oxigenação diária do porvir jornalístico. É o que penso e é o que pensava há cerca de um quarto de século, conforme lê-se neste trecho com que encerro esta provocação: “Sem dúvida, o pauteiro enfeixa hoje nas mãos com que datilografa as pautas um boa porção de poder. Seu compromisso – como o é o de todos os jornalistas – é com o público. Esse poder não o faz manipulador de repórteres-fantoches. Mas um estimulador. Naquele pedaço de papel em que lança cada pauta deve haver sempre a fagulha da vida, que leva o repórter à rua com entusiasmo pelo novo dia e o trás de volta à redação com muito, muito mais vida”.

Luis Guilherme Pontes Tavares é jornalista e produtor editorial. É diretor de Cultura da ABI.