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Festa do Bonfim e dois foliões ilustres da ABI

Por Nelson Cadena*

Dois fundadores da ABI, ambos jornalistas, por dever de ofício devem ser relacionados na respectiva categoria profissional. Prefiro chamá-los de foliões. Os dois carnavalescos assinaram a ata de fundação da entidade, em agosto de 1930, e ambos apreciavam as festas populares e o Carnaval. Jornalistas e foliões. Quais os personagens? Thales de Freitas e Amado Coutinho.

Thales de Freitas, idealizador da ABI, que era baixinho e tinha um biotipo gordinho, chamou a atenção do cronista carnavalesco do jornal O Estado da Bahia, que, em sua coluna, brincou: “O Thales já começou a ensaiar o quebradinho, agradando a todos os foliões o seu rebolar de ancas, que foi assistido por várias pessoas na Segunda-feira do Bonfim, numa chácara em Itapagipe”.

O jornal produziu uma caricatura, vestiu Thales com trajes de baiana, a rigor, com pano da costa, retratando o jornalista como a Mãe da ABI, reconhecendo o seu protagonismo na entidade.

O cronista, em sua verve brincalhona, escreveu: “Não vai o leitor entusiasmar-se com a fotografia acima, julgando ser alguma mulata do Mercado Modelo ou vendedora de acarajé das festas do Bonfim… Trata-se da Mãe da ABI, figura tradicional do jornalismo da terra… É uma novidade! Quem o vê com essa fantasia, requebrando os quadris, batendo com o salto das sandálias no chão… perde o juízo, julgando ser uma dessas mulatas do outro mundo”.

Promotor da Micareta
O carnavalesco Amado Coutinho, fundador da revista Única, foi, em seu tempo, o maior divulgador das festas populares e do Carnaval baiano. Fundou a Associação dos Cronistas Carnavalescos e, na condição de primeiro presidente, criou, em 1934, o concurso de Rainha do Carnaval e, no ano seguinte, foi o articulador e grande promotor da mudança de nome da tradicional mi-carême para micareta.

Revista Única promovia o Carnaval

A ABI possui, em seu arquivo, um documento de Coutinho, correspondência endereçada a formadores de opinião, com o seguinte teor: “Pela presente, solicitamos a V. Sa. o seu voto em um dos nomes desta lista, que deverá substituir, de acordo com o concurso público em toda a imprensa, o nome de ‘micareme’. Gratos pela presteza da resposta, firmamo-nos pela diretoria da Associação de Cronistas Carnavalescos”. Em seguida, elencava as opções: “Refolia, arlequinada, micareta, carnavalito, festa outonal, mascarada, bicarnaval, precareme, brincadeira e remate”. Deu micareta.

A Festa do Bonfim sempre foi tema relevante na mídia. Destacou a chula, do jornal O Óculo Mágico, publicada em 1867. “Muita crioula de torço / Muita mulata faceira / Muito rapaz de bom gosto / Muita moça feiticeira / Muito samba em Itapagipe / Cachacinha de chiar / Cousinhas no Papagaio / de fazer arrepiar”. Até capa de um jornal de caricaturas, o Bonfim foi manchete. O jornal A Malagueta, em 1898, destacou na capa o protagonismo dos afrodescendentes na festa.

Jornal A Malagueta (1898)

O terceiro folião
Dois foliões fundadores da ABI já apresentei. O terceiro, ele mesmo se apresenta na ilustração de capa da revista Luva: Raimundo Aguiar.

Revista de 1929

Associado da ABI foi ele quem desenhou o escudo original da entidade em 1930/31. O clicherista Manoel produziu os clichês na época e gravou 100 emblemas de lapela em metal para os associados. Aguiar mostrou aos baianos o Carnaval, através de capas de revista como a aqui reproduzida, inúmeras vinhetas e historinhas em quadrinhos para jornais e revistas, nas muitas publicações onde o artista português expressou seu talento.

*Nelson Cadena é jornalista, pesquisador, publicitário e atual 2º secretário da ABI.

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
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ABI BAHIANA

8 de janeiro: Ato em defesa da democracia tem participação da ABI

Um ano após a tentativa de golpe com ataques aos poderes em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, a Bahia reafirma seu compromisso com a democracia brasileira. A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) foi uma das organizações que participaram, na manhã desta segunda-feira (8), de um ato em defesa da democracia e contra o golpe, na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). 

A ABI foi representada no ato por seu diretor de Cultura, Nelson Cadena. Pesquisador e jornalista responsável pelo resgate da história da instituição através do livro ABI – 90 Anos, Nelson traçou um histórico rápido sobre como, com poucos anos de existência, a ABI resistiu aos abusos do período de ditadura tornando a defesa da democracia um elemento agregador. “Eu quis registrar o ato permanente da ABI de resistência desses 93 anos [de existência da associação]”, comentou Nelson Cadena.

Veja a íntegra da fala de Nelson Cadena

“Hoje é um dia que estamos aqui para nunca mais esquecer dele e dizer que não vamos aceitar, nunca mais na nossa história, que o que aconteceu um ano atrás volte a se repetir”, defendeu a presidenta da CUT Bahia, Maria Madalena Firmo, conhecida como Leninha, responsável pela mediação do evento.  

O presidente da ALBA, Adolfo Menezes (PSD), trouxe para sua fala uma menção ao jornalista e jurista baiano que é uma das principais referências da ABI e do Brasil ao comentar a atuação do STF após os atos de 8 de Janeiro. “Há 109 anos, em 1915, no Senado Federal, esse baiano fenomenal, chamado Ruy Barbosa, discursava: ‘O Supremo Tribunal Federal é essa instituição criada, sobretudo, para servir de dique de barreira e de freio às maiorias parlamentares”, lembrou o deputado. 

Já o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), destacou o simbolismo dos movimentos sociais e populares de organizarem o ato. “Se não fosse os movimentos nós não estaríamos aqui, poderíamos até fazer um ato simbólico, importante, bonito, mas não teria o sabor daquilo que nós temos que fazer”, afirmou. 

O petista também ressaltou a necessidade de dar espaço para a juventude nesse tipo de ação como parte do movimento de renovação e manutenção da democracia. Ao fazer paralelos com o golpe de 1964, comentou sobre o papel das mídias. “A estratégia agora foi outra. Eles utilizaram as redes sociais e a gente achando que as redes sociais são para a gente ficar brincando, olhando o Instagram, o WhatsApp etc. e eles operando por aí. Utilizaram a imprensa, uma parte da imprensa, para transmitir aquela cena triste que nós assistimos em 8 de janeiro, parecendo que estávamos anestesiados, nós não tínhamos como reagir, nós não nos preparamos para o golpe”, comentou.

Participaram do ato, que aconteceu no Auditório Jornalista Jorge Calmon da ALBA, movimentos sociais, centrais sindicais, representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e integrantes do Ministério Público, Defensoria Pública, Ordem dos Advogados do Brasil – seccional Bahia e União dos Municípios da Bahia. 

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ABI BAHIANA

Filme sobre o “arquiteto da república“ explica o ódio às instituições democráticas

Uma das consequências dos atos golpistas de 08 de janeiro foi a depredação do busto em bronze de Ruy Barbosa, pertencente ao acervo do STF. Apesar dos esforços de restauração, houve a opção do Tribunal de manter o afundamento na cabeça, como cicatriz dos atos golpistas, referência para as novas gerações.

A imagem da peça como ficou e cenas da invasão das sedes dos três poderes, em 08 de janeiro de 2023, são exibidas no teaser de pré-lançamento do filme comemorativo do centenário de Ruy Barbosa que terá a sua pré-estreia em 04 de março próximo no Cine Glauber Rocha.

O filme é uma iniciativa das produtoras DPE Entretenimento, GIROS e da Associação Baiana de Imprensa – ABI com o patrocínio do Governo do Estado da Bahia, via Secretaria da Cultura e da Fazenda, através do programa Estadual de incentivo ao Patrocínio Cultural (Fazcultura) e da Acelen. Com 90 minutos de duração, o longa mostra a presença de Ruy em todas as ações renovadoras durante a Monarquia e na Primeira República, na qual foi um dos seus maiores protagonistas e a presença midiática mais marcante de sua geração.

O filme conta com a participação do ator baiano Ricardo Bittencourt. Em de seus momentos, o ex-ministro do STF Ayres de Brito ressalta o pensamento e legado de Ruy, a sua rejeição ao contingente político autoritário, antidemocrático e o Ruy que abominava as ditaduras militares e científicas. O longa metragem exibe cenas históricas e bastidores da vida do baiano, na sua trajetória como jornalista, político, jurista, diplomata, na Bahia, no Rio de Janeiro e no exterior, com depoimentos de Alexandre Santini, presidente da Fundação Casa de Ruy Barbosa-FCRB, Antônio Edimilson, historiador; Aparecida Rangel, pesquisadora da FCRB; Carlos Augusto Ayres de Brito, ex-ministro do STF; Carlos Henrique Cardim, embaixador e cientista político; Christian Lynch, cientista político; Edvaldo Brito, vereador e imortal da Academia de Letras da Bahia-ALB; Ernesto Marques, presidente da ABI; Joacy Góes, presidente do IGHB; Lidivaldo Reaiche Brito, desembargador do TJBA; Luís Guilherme Pontes Tavares, vice-presidente da ABI; Soraya Realon, pesquisadora da FCRB e Wlamyra Albuquerque, historiadora

FILME: A VOZ DE RUY
DIREÇÃO: BELISÁRIO FRANÇA
PRODUÇÃO EXECUTIVA: MAURÍCIO XAVIER E MAURÍCIO MAGALHÃES
ROTEIRO: PEDRO NÓBREGA
PRODUÇÃO: DPE ENTRETENIMENTO & GIROS
PATROCÍNIO: GOVERNO DO ESTADO DA BAHIA via Secretaria da Cultura e da Fazenda através do programa Estadual de incentivo ao Patrocínio Cultural (Fazcultura)

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ABI BAHIANA

Nelson Cadena recebe Título de Cidadão Baiano

Em sessão especial concorrida e bem-humorada, que contou com a presença maciça de profissionais da comunicação baiana, na manhã desta quinta-feira (14), o jornalista, publicitário, escritor e pesquisador colombiano Nelson Varón Cadena recebeu o Título de Cidadão Baiano, da Assembleia Legislativa da Bahia, proposto pelo deputado Robinson Almeida, líder da Federação PT, PC do B e PV.

Comandada pelo proponente da honraria, a mesa foi composta pelo secretário estadual de Comunicação da Bahia, André Curvello; o ex-deputado Emiliano José, o presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), Ernesto Marques; o presidente da Tribuna da Bahia e da Assembleia Geral da ABI, Walter Pinheiro; o presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Joaci Góes; o arquiteto, historiador e imortal da Academia de Letras da Bahia, Francisco Senna; o presidente da Associação Brasileira das Agências de Publicidade da Bahia (Abap-BA), Américo Neto; a conselheira do Sindicato das Agências de Propaganda do Estado da Bahia (Sinapro-BA), Vera Rocha; o presidente do Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC), Roberto Sá Menezes; o diretor financeiro da Central de Outdoor, Pedro da Rocha; o presidente do Sindicato das Empresas de Publicidade de Exteriores, Ivan Lopes; o representante da ABMP e do Grupo Aratu, João Gomes; e o desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia, Lidivaldo Britto.

Na cerimônia, Robinson Almeida exaltou a contribuição de Cadena para a atividade jornalística, para a produção cultural e para a preservação e valorização da história da Comunicação na Bahia. “Nos 18 livros e mais de 3 mil artigos, crônicas e colunas que escreveu, o trabalho de Cadena é fonte inesgotável desse conhecimento que ajuda a preservar a memória desse importante instrumento para a civilização e para a democracia, que é a Comunicação”, colocou.

Entre as produções literárias do homenageado, o parlamentar citou os livros “Brasil 100 anos de Propaganda”, “450 Anos de Propaganda na Bahia”, A Cidade da Bahia” e “Olhares de Rua” (2022), e destacou sua atuação nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Correio da Bahia e na produção de documentários e conteúdos voltados para o audiovisual baiano.

COLOMBAIANO – Os jornalistas Walter Pinheiro, Emiliano José (ex-deputado) e Ernesto Marques também exaltaram a história e a atuação do novo baiano na comunicação e manifestaram regozijo e orgulho pela entrega de honraria ao colega e amigo.

Presidente da ABI, Ernesto Marques comentou sobre os sonhos de infância do “colombaiano”, de ser papa e toureiro, elogiou as inúmeras produções de Nelson, que também é fundador da página de Facebook e Instagram “Segredos e Histórias da Bahia”, atualmente com mais de 12 mil seguidores mais de 270 publicações e reportagens sobre diversos temas, histórias e curiosidades sobre Salvador, e sobre a Bahia.

“Nelson Varón Cadena é um personagem muito conhecido entre todos aqueles que amam a história da cidade, e agora chegou a hora de retribuir tanto amor e trabalho para conservação e divulgação da nossa memória histórica”, afirmou.

TRAJETÓRIA – Agradecido pelo título e pela presença das pessoas que foram prestigiar o evento, Nelson Cadena lamentou a ausência de três amigos importantes em sua história na Bahia: Arthur Couto, diretor administrativo do Jornal A Tarde; Fernando Carvalho, diretor da Morya (Publivenda), que lhe abriu a porta para várias áreas, especialmente na agropecuária, resultando na criação da Fenagro, Feira Nacional de Agropecuária; e José Linhares, dono da Linhares Outdoor, para quem escreveu o livro sobre os 90 anos da empresa.

Em seguida, relatou o processo de saída da sua terra natal, aos 18 anos, depois de roubar uma câmera rolleiflex do pai, com a intenção de fazer uma reportagem sobre a guerrilha colombiana, para a revista Cronos, o que não aconteceu. Entre a saída de casa, até chegar a Salvador, foi preso numa área da Funai, na Amazonas, e salvo da prisão por saber jogar pôquer, substituindo um dos funcionários do órgão. Viajou clandestinamente, para Brasília, num avião da FAB, de lá, de carona para Minas Gerais e Itabuna.

A chegada a Salvador aconteceu num Dia da Independência, 7 de setembro de 1973, entre o Largo de São Bento e a Rua do Paraíso. À noite, dormiu sob uma amendoeira, na Lagoa do Abaeté, em Itapuã. “Acho que a Bahia me conquistou. A Bahia, me acolheu, desde o primeiro momento. Eu não tinha nenhuma intenção de ficar, a Bahia seria pra mim uma passagem e acabou sendo minha residência definitiva”, afirmou o diretor de Cultura da ABI.

Adepto da cultura hippie, foi morar em Arembepe, depois em Berlinque, conheceu vários jornalistas, e foi convidado para escrever no Jornal da Bahia, em seguida, para a Tribuna da Bahia, onde fez várias reportagens especiais, uma delas denunciando o derrubada do mural de Genaro de Carvalho, no Hotel da Bahia.

Da Tribuna, foi para o Jornal A Tarde, no qual fazia matérias especiais encomendadas pelo jornalista Jorge Calmon, que, depois, o contratou para fazer o livro da ABI. “Fiquei seis meses pesquisando, o livro saiu, e eu não fui convidado para o lançamento”, contou.

Sobre o Título de Cidadão Baiano, o jornalista contou que já havia uma proposta aventada pelos também jornalistas Luís Henrique Pontes Tavares e Olívia Soares, “mas eu não queria, não mandei currículo, fui empurrando”, admitiu. Com a mobilização de Roberto Sá Menezes, Ernesto Marques fez a sugestão a Robinson Almeida, a quem conheceu quando era secretário de Comunicação do governo de Jaques Wagner.

“Me apoiou muito, junto com esta Casa, em dois dos meus melhores livros, A história do Carnaval da Bahia – 130 anos do Carnaval de Salvador, e Festas Populares Fé e Folia, que foram parar em universidades do exterior, e continuam sendo requisitados”, relatou.

Quanto ao merecimento da honraria, o novo baiano revelou ter descoberto, recentemente, que não o merece, depois de visitar a Casa da Música, no Comércio – projeto de Antônio Risério e Gringo Cardia – assistir aos vídeos e reconhecer que tinha uma ideia equivocada de que a música baiana é a que aparece na mídia, que sai no Carnaval.

“De repente, descobri que existe uma musicalidade na Bahia que eu não conheço, e me senti diminuído. A música é a alma da Bahia, como é que eu não conheço isso? Pretendo voltar lá, para poder entender um pouco mais os baianos, e fazer jus a esse título”, assegurou.

Fonte: AgênciaALBA

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