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Copa termina com reprise da violência contra jornalistas

Dentro do Maracanã, festa alemã. Do lado de fora, reprise da violência policial contra jornalistas e manifestantes. Ao contrário do que se tem noticiado, o Brasil não perdeu apenas dentro de campo e a vergonha na Copa do Mundo não se resume à derrota da seleção brasileira.Pelo menos 15 jornalistas foram agredidos pela Polícia Militar durante o protesto que ocorreu na tarde do último domingo (13) na Praça Saens Peña, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, próximo ao Estádio do Maracanã, onde ocorria a final da Copa do Mundo entre Alemanha e Argentina. A ação da PM durante a decisão do Mundial no Rio foi duramente criticada por entidades nacionais e internacionais de defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

Registros publicados nas redes sociais mostram a repressão policial durante a manifestação/Foto: AP
Registros nas redes sociais mostram a repressão policial durante a manifestação/Foto: AP

As prisões de ativistas que participam de movimentos de denúncia dos abusos cometidos em nome da realização da Copa do Mundo no Brasil, com o intuito de esvaziar ou impedir as manifestações antes do encerramento do mundial, não tiveram o resultado desejado. Centenas de pessoas foram às ruas do Rio de Janeiro levando entre suas bandeiras a exigência da libertação imediata dos presos políticos, considerados por alguns movimentos “reféns da Copa”. Duas manifestações aconteceram na cidade-sede da final da Copa e foram violentamente reprimidas pelo aparato policial.

Impedidos de caminhar até o Maracanã e isolados por cordões policias, os ativistas foram alvo de bombas de gás, bombas de efeito sonoro e cassetetes. A cada tentativa de reagrupar e marchar, visando furar o bloqueio policial, choviam bombas e gás. Até mesmo a cavalaria, com policiais armados com espadas foi usada contra os manifestantes. Ativistas, além de jornalistas e midialivristas foram chutados, enforcados pela PM, como mostram os vídeos espalhados pelas redes sociais.

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No emblemático episódio, um jornalista canadense leva um chute no rosto de um PM. Em vídeo publicado pelo jornal Nova Democracia, o profissional de imprensa Jason O’Hara aparece no chão, sem oferecer resistência, quando acaba recebendo um chute no rosto de um policial militar. Mais adiante, o vídeo mostra O’Hara ferido na perna e lamentando “ter sido roubado” por um policial durante toda a confusão. “Agora, estou sem GoPro (marca da câmera que utilizava). Fui roubado por um policial”, comentou. Além de O’Hara, pelo menos outros dois jornalistas estrangeiros – um peruano e outro italiano – ficaram feridos, em uma ação semelhante à que feriu duas jornalistas da rede americana CNN na abertura da Copa, em São Paulo, no último dia 12 de junho.

Jornalistas ficaram feridos por estilhaços de bombas de gás lacrimogênio e golpes de cassetete.
Jornalistas ficaram feridos por estilhaços de bombas de gás lacrimogênio e golpes de cassetete/Foto: Reprodução Facebook

O fotógrafo do Portal Terra Mauro Pimentel, 28 anos, também diz ter sido alvo de agressões por parte da PM quando fazia uma reportagem sobre a manifestação. Em entrevista ao G1-Rio, ele contou como foi a ação da polícia. “Eles gritaram: ‘Para trás, para trás’, começaram a bater e jogaram o spray de pimenta”. Mauro afirmou ainda que estava identificado como jornalista. “Estava de crachá e com capacete preto escrito ‘imprensa’ e com a logo do Terra. Não tinha como fazer confusão”, garantiu o profissional, destacando que a atuação da PM foi diferente neste domingo. “Estou cobrindo as manifestações desde meados do ano passado. Já vi policiais praticando agressões e outros pedindo para agir de forma diferente. Ontem não. Todos estavam hostis desde o início”, contou.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disse que neste domingo foi registrado o maior número de ocorrências contra jornalistas em manifestações durante a Copa. Para a Abraji, os casos mostram o uso desproporcional de força por parte da polícia, e o desrespeito à liberdade de expressão. A entidade contabilizou 38 casos de prisões, agressões e detenções envolvendo 36 profissionais da comunicação durante a cobertura de manifestações de 12 de junho a 13 de julho de 2014. “Seguindo o padrão observado desde junho do ano passado, a maioria das violações (89%) partiu da polícia. Dentre estas, 52% foram intencionais – ou seja, o comunicador se identificou como profissional a serviço ou portava identificação à vista. As demais agressões partiram de manifestantes e de seguranças privados da FIFA”, afirma comunicado.

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O Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) afirmou em nota que “o Estado brasileiro e o governo estadual do Rio de Janeiro ignoraram direitos individuais e coletivos de brasileiros e visitantes, assim como cassaram a liberdade de expressão e a de imprensa (…). Tais práticas de Estado caracterizam grave ofensa a nossa categoria e prejudicam a sociedade como um todo. Sem o respeito ao direito à informação, não há garantia de liberdade ou de democracia”. Segundo dados do SJPMRJ, a polícia “é responsável por 68% dos casos de violência contra jornalistas e comunicadores”, sendo que 90 já foram agredidos desde maio de 2013 na cidade.

Em nota, a Polícia Militar alegou que dados da Inteligência mostravam que um grupo tinha a intenção de se dirigir à entrada do Maracanã, colocando em risco a segurança de milhares de torcedores. A corporação ainda afirmou que todas as denúncias e imagens recebidas relativas a excessos cometidos por policiais militares serão encaminhadas à Corregedoria e apuradas.

*Com informações do G1-Rio, Brasil Post e ANDES-SN.

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Copa revela esperança e descrença na revitalização do Centro Histórico

Ao som de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, cantada a cappella pelas ruas do Centro Histórico de Salvador, a torcida holandesa encerrou a participação da Arena Fonte Nova na Copa do Mundo FIFA 2014. Desde a primeira fase do mundial, o Pelourinho e entorno se consolidaram como reduto de animados torcedores, que levaram um colorido especial à região tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecida pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. A bem-vinda invasão estrangeira foi responsável pelo fortalecimento do turismo no período e sinalizou o potencial de crescimento do setor. Naqueles que lutam pela efetivação do Plano de Reabilitação do Centro Antigo, a ocupação da área representa a esperança de reverter o processo de esvaziamento habitacional, além da possibilidade de revitalizar o comércio, qualificar os espaços culturais e requalificar a infraestrutura, para que também os baianos passem a valorizar o espaço.

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Dados do Fórum de Operadores Hoteleiros (FOHB) revelam que a ocupação hoteleira nas cidades-sede dos jogos foi de cerca de 90% nos dias de jogos e na véspera deles, sendo que Salvador foi responsável por um dos maiores índices. Sem dúvida, os jogos na Arena Fonte Nova trouxeram brasileiros e turistas de diversas nacionalidades e ajudaram a incrementar a economia local, que, nos últimos sete anos, perdeu cerca de 70 estabelecimentos comerciais. De acordo com a Secretaria de Turismo do Estado da Bahia (Setur), além da grande movimentação nos hotéis, cerca de 70 mil turistas estrangeiros frequentaram bares, restaurantes, lojas e prestadores de serviço.

Clarindo Silva, proprietário da Cantina da Lua/Foto: Joseanne Guedes/ABI
Clarindo Silva, proprietário da Cantina da Lua – Foto: Joseanne Guedes/ABI

O diretor do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Salvador e Litoral Norte, Clarindo Silva (72), acredita no legado da Copa por causa da grande projeção da imagem do Brasil para o mundo. No Terreiro de Jesus há mais de 60 anos, ele é proprietário do Bar e Restaurante Cantina da Lua, ponto de referência quando se trata da luta pela preservação do Pelourinho. “Nós temos uma carga tributária muito alta e ainda temos que lidar com a sazonalidade. Trabalhamos no verão para pagar as dívidas do inverno. Eu já tive 49 funcionários, mas fui obrigado a fechar o primeiro andar e dispensar parte deles. Hoje, conto com 14 fixos e cinco temporários. Mas estamos em um momento de oxigenação. Com a Copa e a promoção do “São João no Pelô”, registramos um crescimento de 20% no movimento. Antes da ocupação pelos turistas, o Pelourinho estava abandonado, desprezado”.

Mas, a esperança pode facilmente se transformar em frustração, caso não sejam implantadas medidas para reverter a situação de abandono da área. O Centro Histórico, que já foi o principal ponto de efervescência cultural da cidade, hoje é desértico, perigoso, um oásis da droga e do crime. Um olhar mais atento sobre as ruas não deixa escapar a degradação de monumentos históricos, cujos degraus são utilizados como camas por pessoas em situação de rua, ou a transformação das praças em pontos comerciais pelos vendedores ambulantes. Ao que parece, falta ainda decisão política e consciência de valorização dos bens históricos por parte da população local.

Enquanto os turistas promoviam a festa, pessoas em situação de rua pintavam outra paisagem/Foto: Joseanne Guedes/ABI
Enquanto os turistas promoviam a festa, pessoas em situação de rua pintavam outra paisagem – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Uma das causas desse abandono, explica o antropólogo Roberto Albergaria, se deve à cultura de valorização do novo e do externo. “A Bahia é o 6º destino turístico do Brasil. Mas, nós estamos acostumados a ver o lado negativo e não imaginamos o impacto que aquele espaço causa no turista, tanto pelo caráter histórico quanto pela ambiência popular. A Barra, onde foi organizado a Fan Fest da FIFA, pode ser qualquer lugar da Terra. O Pelourinho é único. Sua estrutura cênica é conhecida em todo o mundo, é a imagem de marca da Bahia. Mas, não prestigiamos o que é nosso. Sempre valorizamos o outro lado do mar. O baiano quer a modernagem, por isso a cidade antiga tem decaído”.

Clarindo Silva enfatiza que os baianos não vêm ao Centro Histórico, exceto em grandes eventos. Para ele, a cidade precisa adotar o Pelourinho e encará-lo como uma joia rara a ser lapidada. “Existe um estigma que coloca o Pelourinho como lugar de prostituição ou de criminalidade, mas, na verdade, é hoje uma das áreas mais bem policiadas da cidade. Mesmo com toda segurança, eu tenho o cuidado de reconhecer que não se pode andar 50m sem ser abordado por algum pedinte e isso tanto assusta quanto incomoda. Isso revela um grave problema social que precisamos enfrentar. Nossa juventude está sendo dizimada pelas drogas, pelo craque. Logo depois da Copa, vamos fazer um movimento para trazer as secretarias de ação social do estado e do município, representantes de entidades da sociedade civil, além de órgãos como o Conselho Tutelar e o Juizado de Menores, para uma ação conjunta que vai ajudar a fazer do Pelourinho novamente a alma da cidade”, revela o dirigente.

Alberto Prado destaca o bom serviço como o diferencial na captação de clientes/Foto: Joseanne Guedes
Alberto Prado destaca o bom serviço como o diferencial na captação de clientes – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Para Alberto Prado (58), proprietário do Café Gourmet, um tradicional restaurante situado na Praça da Sé, oferecer bons serviços é um passo importante no movimento de revitalização da área. Nascido em uma família de comerciantes do Centro Histórico, ele está no local há quase 40 anos. Montou uma livraria, depois, uma tabacaria. Com a proibição do fumo em locais coletivos, aliado ao talento gastronômico, abriu o restaurante, que conquistou prestígio através do marketing boca a boca. “Quem vem à Bahia tem que conhecer o Centro Histórico, que é o nosso coração. Eu atendo muito bem a minha clientela fixa, composta principalmente pelos trabalhadores do entorno, mas, com a Copa, o movimento dobrou. A grande queixa dos clientes é sobre o estacionamento e a questão da abordagem, fruto do problema social que a cidade inteira atravessa”, afirma o empresário que é conhecido como Beto entre os clientes.

De acordo com o Relações Públicas de uma agência de viagens que funciona no Shopping do Pelô, Jorge Oliveira (36), o principal problema da região continua sendo a falta de segurança. Ele questiona o poder público e descrê do projeto de revitalização. “Em um evento como a Copa, o governo oferece um serviço que em dias normais é quase inexistente. O aquecimento do comércio e a ocupação do Pelourinho pelos nativos e visitantes dependem de segurança. Hoje, contamos com ruas desertas pela escassez de moradores”.

Já para Mab Boaventura, recepcionista do Bahia Café Hotel, situado na Praça da Sé, o movimento do comércio é prejudicado pela carência de serviços. “Nesse período, o número de hóspedes foi acima do esperado. Estivemos com 100% de ocupação desde o início do mundial. Mas, eles reclamam da baixa oferta de alimentos no local. Há poucos restaurantes em pleno funcionamento. Por outro lado, o público que frequenta os estádios quase não compra. Ele vem para farrear”, afirma.

Reduto de irreverentes torcidas

Alheia aos problemas da cidade, a torcida holandesa coloriu as ruas do Centro, no encerramento da participação da Arena Fonte Nova na Copa de 2014 - Foto: Joseanne Guedes/ABI
Alheia aos problemas da cidade, a torcida holandesa coloriu as ruas do Centro, no encerramento da participação da Arena Fonte Nova na Copa de 2014 – Foto: Joseanne Guedes/ABI

A capital baiana está no topo do ranking das prediletas entre os turistas que visitam as cidades-sede da Copa do Mundo. As partidas realizadas em Salvador trouxeram, primeiro, as torcidas da Espanha, Holanda, Alemanha e Portugal. Depois, Suíça, França, Bósnia e Irã. Na primeira semana de julho, a capital registrou um expressivo número de visitantes dos Estados Unidos, Bélgica, Costa Rica e o retorno da Holanda. Esta última seleção arrastou para cá aproximadamente sete mil torcedores. Os costa-riquenhos até apareceram no Pelourinho antes da partida do dia 5 de julho (sábado) contra a Holanda, mas foram engolidos pela onda laranja proporcionada pela “Orange Fans”, na última invasão holandesa à Salvador durante a Copa. O sucesso dos holandeses foi tão grande que a Cantina da Lua criou duas bebidas em sua homenagem: “nederinha” e “nederoska”, produzidas com laranja, ao invés do limão usado na tradicional caipirinha.

O cônsul honorário da Holanda em Salvador, Egbert Hein Bloemsma, explica a opção pelo Pelourinho. “Fazer festas em todas as copas é uma tradição holandesa. Em Salvador, nós tivemos outras opções de locais, mas preferimos o Terreiro de Jesus não apenas pelo critério da proximidade com o estádio, mas também pela oportunidade de conhecer o belíssimo conjunto arquitetônico colonial conhecido em todo mundo. Nesta edição, só não conseguimos promover a marcha em São Paulo, por causa da segurança pública, um problema que não tivemos em Salvador porque nos foi oferecida toda a estrutura necessária”.

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Os torcedores foram unânimes quando questionados sobre a receptividade e alegria do povo baiano. O agente penitenciário belga Eusebio Roggen (44), morador de Hasselt, se apaixonou pela atmosfera do Pelourinho. “Vim com alguns amigos porque era o ponto de encontro da torcida, mas não esperava uma gente tão amigável e um clima tão bom. Fiquei muito seguro e pretendo ficar no Brasil para acompanhar a final”. Outro belga que se rendeu aos encantos do local foi Jacques Gossuin (44), da cidade de Binche, que reúne no Carnaval cerca de trinta e dois mil moradores, em uma celebração que começou na Idade Média. “Eu adorei a comida, a alegria das pessoas, as praias… Voltarei para a Bélgica daqui a 25 dias, mas retorno para os jogos de 2016”.

Eusebio, da Bélgica, e Maria, dos EUA, deixam claro que o confronto é apenas detro do estádio - Foto: Joseanne Guedes/ABI
Eusebio, da Bélgica, e Maria, dos EUA, deixam claro que o confronto é apenas dentro do estádio – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Com os estadunidenses não foi diferente. Famílias inteiras circularam pelas ruas do Pelourinho, deslumbradas com a paisagem proporcionada por um dos maiores conjuntos arquitetônicos da América Latina. Moradora de Washington, D.C., Andrea, 25 anos, veio assistir ao jogo com os pais e aproveitou para conhecer o patrimônio histórico, assim como Maria, 24 anos, que mora no Texas e desembarcou em Salvador com um grupo de amigos, todos hospedados em um hotel no bairro da Pituba.

O subsecretário de Turismo da Bahia, Benedito Braga, destaca o trabalho realizado com todos os consulados para montar os receptivos. “Nós fazemos um trabalho de captação e promoção do destino Bahia e previmos a grande movimentação durante a Copa. Fizemos reuniões com a Secretaria de Segurança Pública para dar conforto aos torcedores que visitaram a área, que precisa de uma ação cojunta para contornar os problemas sociais”. Segundo ele, no prazo de um mês, será lançado um projeto de formação de guias mirins de turismo, para capacitar crianças carentes e ajudar a mudar a realidade local.

Mudança essa que passa pelo Plano de Reabilitação do Centro Antigo de Salvador, que está sendo executado pela Diretoria do Centro Antigo de Salvador (Dircas/Conder), para preservar e valorizar o patrimônio cultural, impulsionar as atividades econômicas e culturais da região, além de propiciar condições para a sua sustentabilidade. Uma das promessas do plano é o incentivo a moradias, com a esperança de que as habitações possam ajudar a resolver problemas como a economia local e a segurança. Nesse sentido, a nova perspectiva indica possibilidade de requalificação discutida desde os anos 80.

Segundo a diretora do Centro Antigo de Salvador, Beatriz Lima, em janeiro deste ano foram entregues 17 casarões para moradia. “Diante do processo de esvaziamento ocorrido nas últimas décadas na região, o plano prevê a recuperação dos imóveis em ruínas, subutilizados e terrenos vazios que não estejam cumprindo a função social da propriedade. 41 unidades foram destinadas aos servidores públicos estaduais, que passam a pagar um valor mensal, descontado em folha, pelo uso, e a garantia de preferência caso o imóvel seja colocado à venda pela Conder. Outras 63 novas moradias estão sendo utilizadas por antigos moradores da região. Precisamos habitar a área”, enfatiza a diretora.

Contudo, há mais de dez anos, o governo promete a finalização da 7ª Etapa, área que vem sendo restaurada para habitação. Na busca pelas razões para o tão esperado projeto de revitalização caminhar a passos lentos, o que se encontra é um horizonte misto de expectativa e readequação da gestão pública. Enquanto ações de reparo estão sendo postas em prática, a requalificação total da região, celeiro do nascedouro da cidade de Salvador, patrimônio da humanidade, ainda se apega a um evento pontual como tábua de salvação.

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Ataques da polícia ao trabalho jornalístico nos protestos anti-Copa

Pelo menos seis repórteres foram feridos, cinco deles pela polícia, durante protestos contra a Copa do Mundo em várias cidades do Brasil, segundo informações divulgadas pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) referentes ao dia de abertura do evento, na última quinta-feira (12). Na tarde de ontem, um policial militar identificado como sargento Edmundo Faria prendeu a repórter do jornal O Globo Vera Araújo, quando ela tentava filmar uma ação de PMs na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio de Janeiro. A jornalista, que foi levada algemada para a delegacia, registrou o caso como abuso de autoridade.

Na manifestação de São Paulo, foram feridas as profissionais da rede de televisão CNN Barbara Arvanitidis e Shasta Darlington; a freelancer Michelle Spgea; o jornalista argentino Rodrigo Abd, da agência Associated Press; e o assistente de câmera do SBT Douglas Barbieri. Em Belo Horizonte, outra sede do Mundial, o fotógrafo Sergio Moraes, da agência Reuters, sofreu um contusão leve no crânio após ser atingido por um objeto enquanto cobria uma manifestação.

Após os incidentes ocorridos na abertura do evento, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) emitiu nota oficial sobre as agressões sofridas por jornalistas durante as manifestações ocorridas no Brasil no dia de abertura da Copa do Mundo. Sob o título “É preciso garantir a segurança e o trabalho dos jornalistas e da população”, a entidade faz um alerta à sociedade brasileira e conclama as autoridades à tomada de medidas que assegurem a integridade física e o direito ao trabalho dos jornalistas brasileiros, estrangeiros e demais profissionais de comunicação. “As agressões a profissionais de imprensa, que no Brasil vêm se tornando corriqueiras, são expressões de uma inaceitável escalada de violência e constituem um perigoso ataque às liberdades democráticas no país”.

A Abraji também condenou “o uso excessivo da força” por parte da polícia e informou que desde maio do ano passado 177 jornalistas ficaram feridos durante suas respectivas coberturas. Já o Ministério Público do Trabalho em São Paulo recomendou aos veículos de comunicação que adotem medidas de proteção à saúde e à segurança dos profissionais da área, em especial na cobertura de manifestações e grandes eventos, como a Copa do Mundo.

Segundo a notificação do MPT/SP, as empresas devem fornecer gratuitamente equipamentos de proteção individual (EPI), de uso obrigatório, compatíveis com o grau de periculosidade ou insalubridade a ser enfrentado e treinamento para dos EPIs. As empresas também devem emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) em todo caso de acidentes profissionais, além de assistência à saúde e seguro de vida, “promovendo o acesso à seguridade social e à remuneração adequada, especialmente quando em trabalhos de risco ou viagens a serviço”.

“É preciso dar garantias de segurança e liberdade de expressão aos profissionais da imprensa que trabalham na cobertura de grandes eventos e manifestações. Esses profissionais estão no olho do conflito e precisam ter toda a infraestrutura, apoio e equipamento de segurança que permitam realizar seu trabalho sem prejuízo à sua saúde”, afirma a procuradora do Trabalho Mariana Flesch Fortes, representante regional da Coordenadoria de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho, que assina a notificação. Mariana pondera que o trabalho dos profissionais frequentemente os coloca sob o risco de intimidação, assédios e violências de todo tipo. Para ela, é dever das empresas proporcionar mecanismos que permitam o exercício do trabalho em condições seguras.

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O Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG), por meio da Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos, expediu recomendação para as forças de segurança do estado a fim de que sejam tomadas medidas para garantir o direito de ir, vir e permanecer e o livre exercício da profissão dos repórteres e jornalistas que estejam cobrindo qualquer evento independentemente de estarem credenciados ou vinculados a empresas jornalísticas. A decisão foi tomada após Karinny de Magalhães, integrante da Mídia Ninja, grupo que registra e transmite protestos em todo o país na internet, ter sido presa, quando transmitia ao vivo a manifestação contra a Copa do Mundo em Belo Horizonte. A promotoria de Direitos Humanos do Ministério Público, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais e a Defensoria Pública acompanham o caso.

De acordo com “Guia da Copa do Mundo de Direitos Humanos”, do Centro de Estudos Latino-americanos de Comunicação e Cultura/ ECA-USP, se a Copa do Mundo medisse os índices de respeito aos direitos humanos de cada país participante, o Brasil não levantaria a taça na final. Sequer teria levado o jogo de estreia contra a Croácia, já que o país do leste europeu tem uma taxa de homicídios 20 vezes menor do que a nossa. Se servir de consolo, o Brasil pelo menos ficaria à frente de países como o Irã, onde o respeito à liberdade individual praticamente inexiste, como destaca a publicação que é baseada em dados atualizados da ONU (Organização das Nações Unidas) acrescidos de informações da Anistia Internacional e dos Repórteres sem Fronteiras, entre outras organizações defensoras dos direitos humanos.

*Com informações de O Globo, R7, EFE e O Povo Online

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Jornalista estrangeira é ferida e imprensa mundial destaca protestos

Os protestos em São Paulo e Rio de Janeiro foram o assunto mais discutido nas redes sociais e na cobertura jornalística internacional, antes da abertura da Copa do Mundo na tarde deontem (12). Veículos estrangeiros que cobriram as manifestações falaram em violações de direitos humanos. A Anistia Internacional voltou a criticar a repressão policial em protestos no Brasil. Em nota, a organização de defesa dos direitos humanos destacou o caso da jornalista da rede americana de notícias CNN ferida durante o confronto entre a polícia e os manifestantes. De acordo com o jornal O Globo, pelo menos 17 pessoas ficaram feridas e mais de 70 foram detidas em várias capitais.

Segundo nota divulgada pela CNN, duas jornalistas da emissora tiveram ferimentos leves. “A correspondente da CNN no Brasil, Shasta Darlington, e a produtora da rede, Barbara Arvanitidis, foram levemente feridas enquanto cobriam um protesto realizado na manhã desta quinta-feira, em São Paulo. Os manifestantes marchavam em direção ao estádio-sede da abertura da Copa do Mundo em São Paulo em um protesto contra os custos para a realização do evento, em meio à vasta pobreza no País”, diz o comunicado da rede de TV. Elas sofreram escoriações e foram liberadas após atendimento médico.

A Anistia Internacional solicitou às autoridades brasileiras que investiguem sem demora se a Polícia de São Paulo usou força excessiva contra manifestantes que protestaram antes do jogo de abertura da Copa do Mundo entre Brasil e Croácia, no Itaquerão. Com a hashtag #ProtestoNãoÉCrime, a ONG deixou o recado em sua página no Facebook. “Digam ao governador e ao secretário de segurança pública de São Paulo que a liberdade de expressão e manifestação pacífica são direitos humanos, inclusive durante a Copa do Mundo.”

A imprensa mundial também destacou a repressão aos protestos.“Enquanto a Copa do Mundo começa, a democracia duramente conquistada do Brasil está sob ameaça”, é o título da matéria do jornal britânico The Guardian sobre os protestos. O jornal diz que a ditadura brasileira acabou há 25 anos, mas os abusos de direitos humanos e a polícia militar permanecem. “Direitos democráticos básicos como liberdade de expressão, associação e assembleia que foram conquistados duramente por mais de 30 anos estão agora em risco”, diz o Guardian.

A revista Foreign Policy endossou o mesmo discurso. “Alguns dos problemas da Copa do Mundo já começaram, gerando várias violações de direitos humanos no Brasil. Isso inclui o uso desproporcional da força contra manifestantes pacíficos em um país que já enfrenta altos níveis de violência, uso de tortura e condições prisionais terríveis. Hoje mesmo, manifestantes e jornalistas foram atingidos por gás lacrimogênio fora do estádio antes da partida começar”.

As imagens nas redes de televisão brasileiras mostravam bombeiros tentando apagar os focos de fogo em São Paulo, policiais vestidos como Robocops e nuvens de jornalistas com capacetes ziguezagueando entre uns e outros. Uma moradora do bairro do Tatuapé admitiu ao El País: “Que pena. Meu bairro está em guerra”.

*Informações de O Globo, Brasil Post e El País (Edição Brasil)