ABI BAHIANA

No prelo! Acervo doado à ABI pela família de Walter da Silveira gera primeiro livro

Por Joseanne Guedes e Rayssa Pio

“Walter da Silveira e o cinema moderno no Brasil” é o título do primeiro produto desenvolvido a partir de acervo de Walter da Silveira em posse da Associação Bahiana de Imprensa (ABI). O livro-arquivo, em fase final de editoração, é derivado de uma pesquisa coordenada por Cyntia Nogueira, professora do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. O projeto que deu origem à obra teve início no ano do centenário de Walter da Silveira, 2015, mesmo período em que grande parte do seu acervo foi doada pela família à ABI. O material se juntou a 330 títulos da biblioteca pessoal do crítico e cineasta, comprados pela Associação em 1972, dois anos depois do seu falecimento. 

Cerimônia de doação do acervo de Walter da Silveira, em 2015 | Foto: Luiz Hermano Abbehusen

A doação, formalizada em uma cerimônia que reuniu na ABI importantes figuras da cena audiovisual – como Guido Araújo e Bertrand Duarte -, foi possível graças à cineasta Márcia Nunes. Amiga da família, ela conheceu a ABI na inauguração da Sala Roberto Pires e apresentou à instituição a filha de Walter, Kátia da Silveira.  Na época, Cyntia Nogueira estava fazendo doutorado e se mostrou entusiasmada com a possibilidade de explorar acervo inédito de um dos maiores pensadores sobre cinema no Brasil.

O objetivo da construção de um produto da pesquisa “Pensamento Crítico de Walter da Silveira”, de acordo com segundo Cyntia Nogueira, foi “apresentar e contextualizar a ação e pensamento de Walter para a emergência de um cinema independente em Salvador e na Bahia nos anos 50”. O livro é dividido em cinco partes: Artigos do autor, Correspondências, Dossiê, Documentos e Fortuna Crítica. Em ‘Correspondência’, são trazidas cartas que Walter trocou com Alex Viany, Paulo Emílio e Glauber Rocha. O ‘Dossiê’ reúne seis artigos e resenhas inéditos sobre a ação e pensamento do crítico. Em ‘Documentos’, são mostradas algumas imagens do acervo fotográfico presente no Museu de Imprensa da ABI. ‘Fortuna Crítica’ apresenta artigos sobre Walter da Silveira escritos por importantes críticos brasileiros como Paulo Emílio Sales Gomes, Alex Viany, B. J. Duarte e Octávio de Farias. 

Hoje, a ABI detém a maior parcela do acervo total original de Walter da Silveira, acondicionados no Museu de Imprensa e na Biblioteca Jorge Calmon. São cerca de 2000 livros na biblioteca e 13 caixas de documentos e fotografias no museu. 

Ernesto Marques destaca a necessidade de valorização da memória | Foto: Joseanne Guedes

Ernesto Marques, vice-presidente da ABI, destaca a importância do acervo e da contribuição da ABI na preservação desse material, e demonstra a sua preocupação com a memória da imprensa baiana. “A gente valoriza o gesto da família que doou e o trabalho – lento e caro – de restauração e conservação que tem sido feito pela ABI. Mostrar o livro que está no forno é mostrar o valor da nossa instituição, que cuida bem da memória. Não é para que [os documentos] fiquem apenas bem conservados. É para que estes estejam acessíveis, numa condição de conforto e de segurança, para quem nos procura para realizar pesquisa histórica/ documental”, ressalta. 

Além do acervo disponível na ABI, a pesquisa financiada pelo Fundo de Cultura da Bahia contou com diversos arquivos de outras bibliotecas de Salvador e do Recôncavo, da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) e da Cinemateca Brasileira. A historiadora Manuela Muniz participou da pesquisa de acervo junto com Cyntia e o designer Gil Maciel foi responsável pelo projeto gráfico e editorial. O projeto teve parceria da Editora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da diretora Flávia Rosa e das revisoras Mariana Rios e Sandra Batista. 

Acervo

O acervo de Walter da Silveira passou por processos de restauração e higienização quando foi recebido pela Associação, em 2015. Segundo a museóloga da ABI, Renata Ramos, cerca da metade da documentação que seria destinada ao Museu de Imprensa  estava em bom estado de conservação. Entre os arquivos, estão fotos pessoais, de filmes nacionais e internacionais, alguns cartões postais, fotogramas, fotos de atores, manuscritos, cartas, agendas, recorte de jornais, e outros. De acordo com Ramos, a documentação foi analisada, verificada e acondicionada. “A memória de Walter agora está sendo preservada através do livro e não só através da documentação original”, pontuou.

Valésia Vitória examina obras do acervo de Walter da Silveira | Foto: Joseanne Guedes

Já a documentação que foi destinada à Biblioteca Jorge Calmon, estava bastante degradada, depois de décadas guardada no escritório montado num dos cômodos do amplo apartamento da família, no bairro da Graça, em Salvador. Grande parte do material composto por livros, revistas, catálogos, periódicos e enciclopédias apresentava desgastes do tempo, acidez, rasuras, insetos e fungos.

Os documentos doados passaram inicialmente por uma quarentena, com fungicidas e inseticidas. “O processo de quarentena evita que técnicos e pesquisadores adquiriram doenças de pele e outras alergias”, explica Valésia Vitória, bibliotecária da ABI. Em seguida, o material passou por uma higienização e, por último, foi registrado, catalogado, classificado e acondicionado. “Para a preservação da documentação é muito importante o tratamento de restauro e acondicionamento adequado. É um processo diário de análise, investigação, estudo, pesquisa”, acrescenta a bibliotecária. 

Todo o material danificado foi separado e enviado para Marilene Oliveira, técnica do Laboratório de Restauro e Conservação da ABI. A higienização geral é feita a cada três meses, quando é realizada a limpeza do espaço, das estantes, dos livros, tanto no museu e quanto na biblioteca.

Sobre Walter

Walter da Silveira (1915-1970) foi um dos mais importantes críticos e historiadores do cinema brasileiro, soteropolitano fomentador da cultura audiovisual baiana. Diplomado pela Faculdade de Direito da Bahia em 1935, foi advogado das causas populares, professor, crítico, ensaísta, historiador, pesquisador, cineclubista, ativo teórico do cinema e político.  Ele fundou o Clube de Cinema da Bahia (1950), além de ter organizado festivais de cinema e um curso de cinema em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Cyntia Nogueira destaca que “ele defendeu de forma precursora um projeto de emancipação político-econômica e artística para o cinema brasileiro”. Ela acrescenta que “suas reflexões sobre o papel e a função da crítica cinematográfica foram fundamentais para estimular a articulação entre crítica, teoria e realização de filmes”, avalia a professora.

Segundo o artigo “Walter da Silveira e o Clube de Cinema da Bahia”, de Thiago Barboza de Oliveira Coelho, as críticas de Silveira tendiam a ser interpretações das obras, e não julgamentos. Walter  produziu seu primeiro artigo sobre cinema aos vinte anos de idade, no jornal da Associação Universitária da Bahia, sob o título “O Novo Sentido da Arte de Chaplin”, uma reflexão crítica a respeito do filme “Tempos Modernos”. No final de sua vida, já havia escrito para mais de 30 jornais. Seu primeiro artigo de caráter historiográfico sobre o Clube de Cinema da Bahia publicado na Revista Recôncavo, em edição única de janeiro de 1953, está entre as publicações raras restauradas pela ABI.

*Rayssa Pio é estagiária da ABI, sob a supervisão de Joseanne Guedes.

 

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Notícias

Mostra Mahomed Bamba evidencia força de cinemas negros

Todo o público soteropolitano fã de cinema e audiovisual aguardava ansioso pela abertura da segunda edição da MIMB – Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba, ocorrida no último dia 14. O nome da mostra é significativo. Mahomed Bamba foi professor adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA) e pesquisador na área de cinema e audiovisual. Falecido em novembro de 2015, em todas as sessões, seu nome é elevado ao lugar de importância que criou nos longos anos de atuação e luta em prol de visibilizar os cinemas africanos. A programação segue até o dia 18 de agosto.

Foto: Reprodução

Ao todo, são mais de 70 filmes sendo exibidos em diversas regiões da capital baiana, incluindo bairros periféricos. Segundo conta a organização, “a Mostra tem o objetivo de ampliar as janelas de reprodução dos conteúdos nacionais e internacionais produzidos por realizadores negros”.

Por prezar por representatividade e proporcionalidade na produção, todas as responsáveis pela MIMB são mulheres negras envolvidas com cinema e audiovisual: Julia Morais e Taís Amordivino (coordenadoras de curadoria nacional); Kinda Rodrigues (coordenadora de curadoria internacional); Loiá Fernandes (coordenadora de produção); Naymare Azevedo (coordenação executiva).

A abertura foi realizada no Sesc Pelourinho, com shows da banda Afrocidade e participação da marcante voz de Margareth Menezes. A Afrocidade é considerada uma das apostas mais promissoras do cenário cultural baiano, oriunda do município de Camaçari e que produz um estilo musical marcado pela mistura do afrobeat, rap, ritmos jamaicanos, baianos e africanos. Outro nome novo na área musical, mas que têm se destacado também se apresentou, a cantora Nêssa e Yan Cloud, que em março deste ano lançou o seu último single de trabalho, intitulado “Que Calor”.

Mostrinha – Ilha de Maré, Calabar, Periperi, Goethe-Institut, Sesc Pelourinho, Centro Cultural da Barroquinha, Sala Walter da Silveira (Dimas), Casa de Angola e o Ponto de Cultura Boiada Multicor são os locais e instituições contemplados com o recebimento da mostra durante os dias do evento. Além dos filmes exibidos, acontecem também apresentações culturais, oficinas, palestras, exposição e circulação de novos conteúdos. Este ano, a MIMB lançou programação também para o público infantil com a sessão nomeada de “Mostrinha”.

Numa entrevista concedida ao Jornal da Manhã da Rede Bahia, a cineasta e idealizadora da mostra, Daiane Rosário contou com felicidade o orgulho da participação infantil nas exibições. Segundo Rosário, “a Mostrinha é o momento mais lindo da MIMB, onde a gente não só trabalha a questão da sessão de filmes, mas a gente faz contação de história, oficina de origami, oficina de Obayomi. A gente trabalha toda essa ludicidade, coloca pintura, todas as coisas para as crianças interagirem e o momento legal da sessão é quando elas se veem. Crianças pretas se vendo nas telas!”, conta, feliz. Assista a matéria completa a partir de 01:41.

  • Confira no Instagram Oficial da MIMB a programação para os dias 16, 17 e 18 de agosto.

*Supervisão: Joseanne Guedes

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Relacionada: Mostra em Salvador celebra o audiovisual negro e homenageia Mahomed Bamba

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Sessão especial na ABI exibe documentário sobre o Caso Geovane

Preso, torturado, degolado vivo, queimado, esquartejado. O trágico destino de Geovane Mascarenhas de Santana, cujo assassinato por policiais militares em 2014 ficou posteriormente conhecido como “Caso Geovane”, será lembrado na sede da Associação Bahiana de Imprensa (ABI). No aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro, a Sala Roberto Pires, exibirá às 18h o documentário “Sem Descanso” (2018). A obra, do cineasta francês Bernard Attal, narra a saga de Jurandhy Silva de Santana em busca de seu filho, desaparecido após uma abordagem policial no bairro da Calçada, em Salvador.

No dia 13 de agosto de 2014, uma reportagem do jornalista Bruno Wendel para o jornal Correio* revelava o desaparecimento da vítima. Segundo a matéria, uma câmera de segurança flagrou o momento em que Geovane, de 22 anos, foi levado no fundo de uma viatura. Dois dias após a publicação ganhar as ruas, o corpo carbonizado foi encontrado. As investigações chegaram a 11 policiais, que foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio, sequestro e ocultação de cadáver.

O documentário Sem Descanso foi lançado no dia 17 de novembro, durante o Panorama Internacional Coisa de Cinema, mais relevante evento de cinema da Bahia. De acordo com Bernard Attal, a série de reportagens “Onde está Geovane?”, produzida pelo jornal Correio*, motivou a realização do filme. Attal, que divide o roteiro com a jornalista e produtora cultural Fabíola Aquino, destaca a importância do jornalismo investigativo. “Achei muito bacana porque o jornal acompanhou o pai, não deixou a história cair”. Para ele, o desfecho do caso só foi possível por causa da obstinação de Jurandhy, que não descansou até saber o destino do seu filho.

“Sem descanso” foi dedicado a Sérgio Costa, que morreu em 2016 e era editor-chefe do jornal Correio* quando o crime aconteceu. De acordo com Bruno Wendel, o papel de Costa foi fundamental para a continuidade da apuração. A obra, inclusive, conta com depoimentos de Sergio Costa, Bruno Wendel e Juan Torres, editor do jornal na época. Pela série de reportagens, Bruno Wendel foi indicado ao Prêmio ExxonMobil de Jornalismo (antigo Prêmio Esso) e venceu o Prêmio OAB de Jornalismo.

A sessão ambientada na ABI dispõe de 20 lugares. Para ter acesso, os interessados devem enviar um e-mail de confirmação de presença (RSVP) para <[email protected]>. No Edifício Themis, vizinho do Edifício Ranulpho Oliveira, onde está situada a sede da ABI, há um estacionamento. Acesso pela Rua D’Ajuda.

 

Serviço

Exibição do filme “Sem descanso” (2018)

Data: 10/12/18, às 18h

Local: Sala Roberto Pires (sede da ABI – 2º andar do Ed. Ranulpho Oliveira – Rua Guedes de Britto, 1 – Praça da Sé)

Entrada franca (20 lugares)

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Museu de Imprensa da ABI exibe filmes para estudantes da rede pública de ensino

Como parte da 12ª Primavera dos Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Museu de Imprensa da ABI vai exibir no dia 19/09 (quarta-feira) dois curtas-metragens para estudantes das redes municipal e estadual de ensino. Foram convidadas escolas situadas no Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador. As sessões serão realizadas na Sala de Exibição Roberto Pires, na sede da ABI (Praça da Sé).

Pela manhã, a partir das 9h, o Museu exibirá “A menina que odiava livros”, seguido de uma atividade relacionada ao Dia Internacional da Paz, celebrado anualmente no dia 21 de setembro. A partir das 14h, será a vez do filme “Balú”. Depois da exibição, haverá uma dinâmica com o Dado da Paz.

“A menina que odiava livros”(2006), curta-metragem realizado por Jo Meuris com base no livro homônimo de Manjusha Pawagi e Jeanne Franson, é uma obra de incentivo à leitura. Ele conta a saga de Meena, uma garota que odiava livros, mas vivia em uma casa cheia deles. Um dia, ao subir em uma enorme pilha de livros infantis para salvar o seu gato Max, derruba os livros. Abertos pela primeira vez, as páginas dos livros libertam as personagens e Meena mergulha no oceano da literatura.

Já o curta-metragem baiano “Balú” (2014) conta a história de um menino que tem como único amigo um cachorro vira-lata. Um dia, o cachorro desaparece misteriosamente. E em busca do amigo perdido, o menino vai embarcar numa grande aventura pelas ruas do seu próprio bairro. Com direção de Paula Gomes, o filme, que foi rodado totalmente em Plataforma, contou com a participação de crianças e jovens do local, tanto no elenco como na equipe técnica.

Educação – A cada edição da Primavera dos Museus, o Ibram lança um tema para fomentar as discussões e inspirar os eventos propostos pelos museus ou instituições culturais. Este ano o tema é Celebrando a Educação em Museus, que tem como embasamento o Caderno da Política Nacional de Educação Museal (PNEM), lançado no último mês de junho. A publicação aborda o processo de criação da PNEM, bem como os princípios e diretrizes dessa política, que visa nortear gestores, educadores e demais interessados na prática da educação museal. Para a entidade, os museus devem ser reconhecidos como espaços plurais, que propiciam vivências diversas e trocas constantes de conhecimentos e experiências e, nesse sentido, a educação permeia todos os seus cantos. Para saber mais sobre o tema, clique aqui.

Sinopses

A menina que odiava livros  “A Menina que Odiava Livros” é um curta-metragem que adapta o livro homônimo de Manjusha Pawagi e Jeanne Franson. Ele conta a história de Meena, uma garota que odiava livros, mas que não conseguia ficar longe deles, porque em sua casa eles estavam por toda parte: nos armários da cozinha, nas gavetas, nas mesas, nos guarda-roupas e nas cômodas. Estavam também sobre o sofá, alguns entulhados na banheira e outros empilhados nas cadeiras. Mas um dia o gatinho de Meena derrubou uma pilha enorme de livros infantis. Abertas pela primeira vez, as páginas dos livros libertaram os personagens e animais das histórias, que invadiram a sala, fazendo uma grande bagunça. Esse acontecimento mágico fez Meena viajar pelo fantástico mundo da literatura. Duração: 6’31”

Balú – O filme de Paula Gomes narra a história de um menino e seu melhor amigo, um cachorro vira-lata. Apesar disso, sua mãe não permite que o cão fique em casa. Um dia Balú desaparece misteriosamente. Em busca do amigo perdido, o menino vai descobrir o mundo à sua volta. Duração: 13’55”