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Das múltiplas faces de um intelectual: o jornalista Luis Henrique Dias Tavares

Por Wendel Miranda Santos*

Falar do professor Luis Henrique Dias Tavares (1926 – 2020) não é tarefa simples. Intelectual renomado, deixou por volta de 27 livros de diversos gêneros, tanto ficcionais quanto acadêmicos, além de vários textos em periódicos. É o membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) com o maior número de correspondências preservadas, uma marca que ultrapassa mil cartas enviadas a ele. Esses detalhes já chamam atenção por si só, e em meio a muitas missivas sobre ficção e história, uma delas discute um assunto que foi interesse do escritor e se fez presente ao longo de toda sua vida.

Em 1977, foi enviada ao apartamento 104, na rua Esperanto, nº 70, na capital soteropolitana, uma correspondência direto de Brasília com o seguinte aviso: “custei muito a aparecer, não? Debite isso à falta de tempo”. Este não era o único elemento que criava obstáculos para trocas de correspondências nessa década. Ao falar da Universidade de Brasília (UnB), o remetente revela que “hoje, o reitor determinou a reabertura das aulas, e houve mais 100 prisões no campus”. O contexto nacional era o de repressão, violência e censura, clima criado após o golpe militar de 1964. “Em suma, a coisa está difícil”, confessou o jornalista cearense José Carlos Bardawil, para quem ele pede “aceite a amizade do Bardawil e escreva logo”1, ao professor Luis Henrique Dias Tavares.

Essa foi a única carta localizada que indica que os dois conversavam. Não se sabe o grau de amizade entre eles, contudo, eles tinham um ponto em comum: a atividade de jornalista. O remetente trabalhou nas revistas IstoÉ e Veja, ocupando-se exclusivamente do jornalismo. Dele não se falará muito aqui, porque essa correspondência é só mais uma das centenas que estão preservadas na Academia de Letras da Bahia (ALB), e a maioria delas possibilitam falar dos temas de interesse do imortal e o seu legado para a produção intelectual brasileira. Essa missiva, porém, tem como assunto principal “ser jornalista”. O destinatário, referenciado por muitos de seus alunos e orientandos como “mestre Luis Henrique”,foi um intelectual com uma extensa bibliografia em diversas áreas, atuando na docência, na literatura, na História e no jornalismo, sem deixar de dar atenção a nenhuma delas. Foi um intelectual polígrafo, indivíduo pertencente ao grupo dos “homens de letras”, figuras que materializam o seu trabalho através da escrita, contribuindo na formação da educação e da historiografia brasileira ao longo do século XX e XXI, sobretudo com sua obra mais conhecida e revisitada, o livro História da Bahia, que se encontra na sua 12ª edição2.     

Nascido no dia 25 de janeiro de 1926, em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano, o escritor baiano era filho de Luiz Dias Tavares (1901-1981), comerciante e provedor da Santa Casa de Nazaré, que cuidou de dar as melhores e mais confortáveis condições que poderia oferecer à família, e Elza Dias Tavares (1905-1985), dona de casa que investiu em saúde e educação do filho. Consuelo Novais Sampaio (1936-2013), historiadora que também o chamava de “mestre”, afirma que Luiz e Elza investiram na formação intelectual para que ele não percorre a carreira tradicional dos jovens Tavares, no final do século XIX e início do XX, evitando o destino de trabalhar no comércio3

Estudou na Bahia, fazendo graduação em Geografia e História na atual Universidade Federal da Bahia (UFBA), entre 1948 e 1951. Exerceu diversos cargos públicos, como professor do ensino básico, no popular Colégio Estadual da Bahia, e universitário, na UFBA, de 1961 até 1991, lourado como professor emérito após sua aposentadoria; tornou-se diretor do Arquivo Público do Estado da Bahia – APEB (1959-1969), com uma administração amplamente reconhecida, sendo considerado um gestor pioneiro da governança arquivística no estado. É o que aponta Maria Teresa Navarro de Britto Matos, ao afirmar que mesmo com o descaso que o APEB sofreu durante a década de 1960, pelo governo, a gestão do professor buscou outros caminhos que contribuíram para valorizar e modernizar a instituição, criando uma “cultura de governança pública arquivística na Bahia e no Brasil”, embora não tenha recebido tanto apoio político e social para implementação de políticas públicas derivadas dessa cultura4, sobretudo pelo contexto repressivo em que foi desenvolvida. Tornou-se membro da ALB, um imortal, ocupando a cadeira número 1, em junho de 1968, declarando, em seu discurso de posse, “meu pai não gritava; minha mãe cuidava para que o seu filho homem chegasse a doutor e fosse por todos respeitado”5. O investimento de seus pais foi devidamente aproveitado. Promessa feita, promessa cumprida. 

Muito já foi escrito sobre as conquistas, qualidades e contribuições do professor Luis Henrique, mas, nos estudos sobre intelectuais, François Sirinelli nos lembra que os obstáculos para estudar a trajetória de um membro desse grupo se encontram na abundância de documentação6. Afinal, se o trabalho intelectual é materializado no texto escrito, o professor Luis Henrique sempre dará pano para manga. Para resumir e voltar ao ponto da carta de Bardawil, convém destacar, dentre os inúmeros trabalhos, alguns textos importantes que foram publicados em homenagem ao célebre autor de História da Bahia

A começar pelo texto publicado por seu amigo de sempre, o escritor baiano James Amado (1922-2013), que sempre apoiou a carreira literária do professor, desde o primeiro livro A noite do homem (1960), escrevendo nas orelhas dos livros e estando presente nos agradecimentos do autor. Na obra Almoço posto na mesa, publicada pela Empresa Gráfica da Bahia, em 1990, James escreveu um prefácio falando da qualidade de ficcionista de seu amigo, intitulado História e Ficção, no qual fala de que forma as experiências como historiador “influem no ritmo da exposição e da literatura e lhes conferem um caráter histórico”7. Em 2007, Edivaldo Boaventura (1933-2018), um dos fundadores da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), professor universitário e presidente da ALB, escreveu para a revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), em comemoração aos 80 anos de seu amigo, sobre o mesmo tema de James Amado, “vamos tomar história e literatura como balizas da obra realizada. Boa parte dessas oito décadas que hoje festejamos está enriquecidas de pesquisa histórica, de crônicas e de ficções. Frutos de um trabalho sério e inspirado do nosso homenageado”8. Os dois textos são de amigos que o acompanharam no início de sua carreira, valendo, agora, a menção dos textos de suas alunas. Um outro ângulo sobre o professor. Em 2006, as historiadoras Maria José de Souza Andrade e Marli Geralda Teixeira, publicaram “Luis Henrique Dias Tavares: trabalho, dedicação, precisão e crítica”, abordando suas experiências e qualidades de pesquisador, historiador e professor, justificando o título de “mestre” com vários exemplos, em especial quando destacam que “apesar de todo esse zelo pela informação correta, o Professor sempre se revelou acessível e compreensivo diante das interpretações apressadas ou mesmo imaturas de estudantes envolvidos no ativismo político e no uso anacrônico de modelos históricos”9. Por último, mas não menos importante, o depoimento de Consuelo Novais Sampaio, historiadora que também foi sua orientanda, escrito num posfácio do último livro de ficção do autor, Nas margens, no leito seco (2013), intitulado “O mestre Luis Henrique”. Fruto de entrevistas que ela realizou, conta detalhes da trajetória daquele “quem, nos amargos anos da Ditadura Militar, concordou em orientar a dissertação do meu primeiro mestrado, depois de haver recebido a recusa de outros professores pelo simples fato de tratar do tema político – ainda que da Primeira República!!!”10. A autora comenta sobre as primeiras atividades intelectuais do professor, revelando as empreitadas sobre essas experiências, a começar pelo jornalismo. 

Convido a todos a leitura dos textos citados para os que desejam conhecer o historiador e o ficcionista Luis Henrique Dias Tavares. Essas duas funções foram destacadas por seus contemporâneos nesses trabalhos, mas chamo atenção para a atividade de jornalista que ele exerceu, um pouco ofuscada nessas narrativas devido à admiração que os seus pares tinham pelo literato e pesquisador. Contudo, foi através do jornalismo que o autor começou a dar seus primeiros passos no “universo das letras”. 

Segundo Paulo Silva, para aqueles que desejavam ser intelectuais, na primeira metade do século XX, período em que as influências das editoras e universidades ainda eram fracas, o meio por excelência de escrita e divulgação, por causa da sua acessibilidade, era a imprensa11. Ciente disso, Luis Henrique começou sua primeira empreitada, criando, em 1941, o jornal O Parlapatão, ao lado de Clóvis Neiva Naya, com seus primeiros textos a respeito da sua cidade natal, quando estudava no colégio Clemente Caldas. No ano seguinte, foi para Salvador morar com seus avós da parte materna, Joaquim Dias Tavares (1874-1960) e Amélia Rodrigues da Costa Tavares (1881-1972). Teve uma breve passagem pelo Colégio Nossa Senhora da Vitória e foi estudar no Colégio Central da Bahia, por onde conheceu diversos estudantes universitários da Faculdade de Medicina, fazendo parte do Teatro de Estudantes da Bahia (TEB), fazendo amizade com o diretor, Heron de Alencar (1921-1972), conhecido militante do PCB. Em 1944, criou a revista Evolução, com amigos engajados na militância, como Ariovaldo Matos (1926-1988), Boris Tabacof (1929-2021) e Darwin Brandão. Esse novo projeto teve um tempo de vida curto, devido às ordens do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de encerrar as atividades da revista. Contando com 19 anos, com rusgas contra o órgão repressor getulista, passa a fazer parte do jornal O Momento, criado por João Falcão, em 1945, periódico conhecido pela postura abertamente comunista12, postura que o jovem aspirante a escritor adota também. Não foi sozinho. Os amigos fizeram parte dessa caminhada composta por uma juventude de esquerda, convocados como focas, além de Darwin Brandão, estavam Carlos Anibal Correia, Nilo Pinto e outros estudantes. Com o passar dos anos, Luis Henrique passou a ocupar diversos postos no jornal.

Acervo: Associação Bahiana de Imprensa

Trabalhou em O Momento até 1952, mas a imprensa foi sua porta de entrada para as oportunidades que a carreira intelectual poderia oferecer. Escrevia diversas crônicas e contos no suplemento literário do jornal, mas também publicava matérias em defesa do socialismo, sobretudo no contexto de Guerra Fria, com o terror diário e incerto das bombas atômicas. Um dos exemplos de sua dedicação ao jornal se encontra no episódio de 22 de fevereiro, em 1948. Em razão do centenário do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx, O Momento decidiu fazer um comício na praça da Sé, aproveitando o palanque para criticar o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), convidado os “candidatos de Prestes”, os deputados estaduais Giocondo Dias (1913-1987) e Jaime Maciel (1913-1986), os mais votados do PCB pela Assembleia Constituinte de 1946. José Maria Rodrigues, Almir Matos, Henrique Lima e Luis Henrique foram escalados para cobrir o evento, contudo, a polícia apareceu e fechou o comício, numa resposta violenta à sua realização. Os jovens foram presos, de forma que Alberto Vita e Aristeu Nogueira (1915-2006), publicaram uma nota à Associação Bahiana de Imprensa, pedindo que se posicionasse em defesa dos seus funcionários. Foram soltos no dia seguinte, e Luis Henrique foi fazer o vestibular da Faculdade de Filosofia da Bahia. Mas não abandonou o jornalismo.

O Momento, 25/02/1948. Acervo: Biblioteca Central do Estado da Bahia

Apesar dessa experiência, O Momento proporcionou amizades longevas para Luis Henrique. Além de James Amado, publicava junto com Jorge Amado (1912-2001), Clóvis Moura (1925-2003), Vasconcelos Maia (1923-1988), Wilson Rocha e outros intelectuais da Bahia. Participou da segunda edição da revista Seiva, em 1950, colaborando com as revistas Para Todos e Fundamentos, em correspondência com Clóvis Moura. Em 1951, participou da criação de Cadernos da Bahia, junto com os seus companheiros. Mesmo com a verve militante, em todas as revistas escrevia ficção e sobre ficção, atitude que o ajudou a publicar alguns de seus livros, como A noite do Homem (1960) e Moça Sozinha na Sala (1961), reunindo e editando os textos que escrevia.

Depois que casou com Laurita Pontes Tavares, em 1951, saiu do diário comunista e foi focar na vida docente, pois já tinha o diploma de professor quando se formou no ano anterior. Em 1952 e 1953 tiveram dois filhos, respectivamente, Luis Guilherme Pontes Tavares e Sérgio Alexandre Pontes Tavares (1953-2011). Precisava sustentar sua família e trabalhar apenas nos periódicos não pagava tão bem. Contudo, retornou a atividade jornalística em 1958, no Jornal da Bahia, também de João Falcão, publicando crônicas, três vezes por semana na coluna “Cidade, homens e bichos”, passando a se preocupar apenas em escrever textos de ficção no periódico, enquanto estudava para fazer suas pesquisas de história e dar aulas na UFBA, a partir da década de 196013. O trabalho com o APEB também o preocupava. Passou as décadas seguintes se especializando em pesquisa histórica que lhe rendeu uma vasta produção bibliográfica, além da titulação de Doutor, em 1961, e pós-doutorado, em Londres (1977-1986). Entretanto, o jornalismo ainda estava em seu horizonte.

Sobre esse aspecto, Bardawil nos revela que, em plena ditadura, uma mensagem que o professor tinha enviado para ele, uma recomendação: “quanto aos livros que você me sugere fazer, vou fazê-los, ou melhor, já estou começando a fazê-los”, e completa que “este livro, acredito, seria uma boa contribuição para os estudantes de jornalismo”14. Mesmo com suas novas obrigações, Luis Henrique Dias Tavares buscava melhores condições para o meio jornalístico, em um momento da história brasileira marcado por dura censura. A imprensa foi a porta de entrada da sua formação e de muitos outros amigos, conhecia bem a importância de ser jornalista. Como disse Jorge Amado, “no peite desse Luis Henrique de franzina compleição, pulsa um coração grande como o mundo”, a admiração que intelectuais de diversas áreas têm pelo professor, em suas qualidades de escritor, pesquisador e pessoa humana, imortaliza essa verdade proferida por seu amigo.

No dia 25 de janeiro de 2026 completam-se cem anos de seu nascimento. O seu centenário é importante para nos lembrar de muitos aspectos que contam a história da Bahia. Ler as obras e a trajetória do professor Luis Henrique Dias Tavares serve de guia para estudar a formação intelectual brasileira interessada em conhecer esse estado. Não só sua atividade como historiador e professor, mas também pela sua atuação como jornalista. Convém, sempre que necessário, visitar seus trabalhos para conhecer melhor um dos mestres imortais da ALB.

* Wendel Miranda Santos é graduado em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e mestrando em História, Cultura e Práticas Sociais pelo Programa de Pós-graduação em História da UNEB, campus II – Alagoinhas.

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
  1. BARDAWIL, José Carlos. [Correspondência]. Destinatário: Luis Henrique Dias Tavares. Brasília, 25 jul. 1969. Disponível na Academia de Letras da Bahia. ↩︎
  2. Bibliografia obrigatória para quem deseja fazer a seleção na especialização de História da Bahia, na Linha de Pesquisa História e Historiografia da Bahia, na Universidade Estadual de Feira de Santana (embora a edição que consta no último edital, de 2026, seja a 10ª). ↩︎
  3. SAMPAIO, Consuelo Novais. O mestre Luis Henrique. Posfácio In: TAVARES, Luis Henrique Dias. Nas margens, no leito seco. Salvador: EDUFBA. p. 89. ↩︎
  4. MATOS, Maria Teresa Navarro de Britto. Governança e arquivos: a gestão Luis Henrique Dias Tavares no Arquivo Público do Estado da Bahia (1959-1969). Revista Brasileira de História, v. 38, n. 78, p. 147-166, 2018. p. 161-162. ↩︎
  5. TAVARES, Luis Henrique Dias. Discurso de Posse. Revista da Academia de Letras da Bahia– RALB, v. XXII, n.49, 1971-1972. p. 47. ↩︎
  6. SIRINELLI, Jean-François. “Os intelectuais” in: RÉMOND, René (org.). Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996. p. 244. ↩︎
  7. AMADO, James. História e ficção. In: TAVARES, Luis Henrique Dias. Almoço posto na mesa. Salvador: EGBA, 1990. p. 8. ↩︎
  8. BOAVENTURA, Edivaldo. Luis Henrique Dias Tavares, historiador e ficcionista. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, v. 102, p.195-208, 2007. p. 195. ↩︎
  9. ANDRADE, Maria José de; TEIXEIRA, Marli Geralda. Luis Henrique Dias Tavares: Trabalho, dedicação, precisão e escrita. Revista de Cultura da Bahia, n. 23, p. 169-187, 2006. p. 176. ↩︎
  10. SAMPAIO, Consuelo Novais. O mestre Luis Henrique. Posfácio In: TAVARES, Luis Henrique Dias. Nas margens, no leito seco. Salvador: EDUFBA. p. 87. ↩︎
  11. SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e construção do discurso histórico na Bahia (1930 – 1949), Bahia: EDUFBA, 2011. p. 13-14. ↩︎
  12. FALCÃO, João. O partido comunista que eu conheci (20 anos de clandestinidade). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988. p. 267. ↩︎
  13. TAVARES, Luis Henrique Dias. 3 histórias. Salvador: P555 Edições, 2006. p. 3-4. ↩︎
  14. BARDAWIL, José Carlos. [Correspondência]. Destinatário: Luis Henrique Dias Tavares. Brasília, 25 jul. 1969. Disponível na Academia de Letras da Bahia. ↩︎
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O mordomo devotado não ouviu as três últimas palavras de Ruy

Luis Guilherme Pontes Tavares*

O livro Rui Barbosa na intimidade, escrito por Antônio Joaquim da Costa, que foi o mordomo na residência do jornalista, jurista, diplomata, filólogo e político baiano, foi publicado em 1949 (ano do centenário de nascimento do personagem), no Rio de Janeiro, pela Casa Rui Barbosa (convertida em fundação a partir da década de 1970). Do ponto de vista deste leitor, a obra surpreende tanto pelo texto, quanto pelo tratamento editorial dado ao produto e, também, por causa dos vários episódios relativos à Bahia.

O prefácio do livro é do escritor Luiz Viana Filho, biógrafo de Ruy Barbosa, que acentua que “no gênero [relato de mordomo sobre o patrão] é o presente trabalho cremos que o primeiro a ser editado no Brasil”. O prefaciador foi quem sugeriu, 15 anos antes do lançamento do livro, que Antônio Joaquim da Costa escrevesse sobre o convívio que teve com a família de Ruy.

A obra é dividida em pouco mais de 50 textos sucintos e bem escritos, um dos quais intitulado “As três últimas palavras…”, que transcrevo abaixo com outros três textos que distinguir entre os demais. Com 128 páginas, a obra é ilustrada e exibe, em cores, o brasão da família Barbosa de Oliveira, originária de Portugal. Impressa pela Gráfica Olímpica, do Rio de Janeiro, da edição “foram tirados 200 (duzentos) exemplares em papel Machine Ledger numerados, e rubricados pelo diretor [escritor Américo Jacobina Lacombe (1909-1993)] da Casa de Rui Barbosa”. Boa parte dos textos faz referência à Bahia, sobretudo aos périplos de Ruy pelo interior baiano durante as campanhas de 1910 e 1919 para Presidência da República.

Brasão (encartado entre as páginas 22 e 23 do livro “Rui Barbosa na Intimidade”) | Reprodução

Do Palácio para a Vila

A família de Ruy Barbosa conheceu Antônio Joaquim da Costa no Palácio do Catete, onde trabalhava. No final do Governo Afonso Penna (1906-1909), a convite do filho mais moço de Maria Augusta e Ruy Barbosa, João (1890-1947), Antônio, na altura com 29 anos, apresentou-se na residência da família, na Rua São Clemente, em Botafogo, para ali trabalhar. Seguiria ligado ao endereço por muitos anos após a morte de Ruy em 1923.

Pelos cálculos óbvios, Antônio Joaquim nasceu em 1880 e, em 1948, seguia ativo a ponto de escrever o seu livro Rui Barbosa na intimidade. Em 1909, quando foi admitido como empregado da família de Ruy Barbosa, Antônio Joaquim foi entrevistado por dona Maria Augusta e, no dia seguinte, apresentado ao marido dela, a quem ele só se referia como Conselheiro, título que Ruy herdou do o tempo do Império. No primeiro contato entre os dois, o Conselheiro deu a Antônio Joaquim a tarefa de cuidar dos livros dele. Outras tarefas, no entanto, foram agregadas ao longo do tempo.

A literatura sobre dona Maria Augusta, Ruy e família refere-se a Antônio Joaquim como mordomo e, também, como zelador. Fato é que, após a morte do Conselheiro, e a transformação da Vila no primeiro museu casa do Brasil, Antonio seguia ligado ao imóvel e lhe coube a zeladoria interina em 1937. Ele foi aposentado, nessa função, através da Lei 2108, de 23/11/1953, aprovada pelo Senado Federal. Eis quatro textos dele:

“A última rasteira de Pinheiro Machado

De cada lado da secretária de jacarandá, existente no Salão da Biblioteca, havia duas pequenas escadas das quais o Conselheiro se utilizava para arrumar e retirar os livros. Ainda havia uma escada-cadeira, de carvalho, mandada fazer por ele na Bahia. Nela Rui Barbosa quebrou a perna, surgindo o seguinte episódio pitoresco:

Em 15 de setembro de 1915, às 9 e ½ da manhã, estando pronto para assistir à missa de 7º dia em intensão do General Pinheiro Machado [o gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915) foi senador da República], encontra-se Rui Barbosa no corredor com um amigo que vinha pedir-lhe um parecer. Escusou-se o Conselheiro no momento, alegando pressa, por estar na hora da missa, porém na volta o atenderia. Não se conformou com isto o amigo, e Rui Barbosa voltou à Biblioteca mal humorado. Tomando a escada-cadeira, subiu o Conselheiro com pressa e ao estender as mãos para apanhar o livro de que necessitava, perdeu o equilíbrio e caiu sobre um sofá, quebrando a tíbia da perna esquerda. Ao ouvir o barulho, todos corremos para ver o que havia acontecido. Rui Barbosa achava-se caído no chão, muito pálido.

Chamou-se imediatamente a Assistência, mas quem assistiu ao Conselheiro foi o professor Conde Paes Leme.

Passada a hora do pânico, já tudo calmo, disse Rui Barbosa em tom irônico:

– Foi a última rasteira que o Pinheiro me passou. Não quis que fosse à sua missa.

E assim Rui Barbosa ficou impossibilitado de ir às livrarias e ao cinema do qual era grande admirador, durante 70 dias.” (p. 30-31 da edição de 1949)

“Um episódio político

Entre diversos episódios humorísticos a que tive a honra de assistir na minha convivência com o saudoso Conselheiro, transcrevo este, passado entre Rui Barbosa e o Dr. Nilo Pessanha, então candidato à presidência da República.

Certa manhã, estando marcada uma entrevista com Rui Barbosa, em São Clemente, às 8 horas da manhã, encontrava-se o Conselheiro no salão da biblioteca, hoje sala Constituição, esperando Dr. Nilo Pessanha. À hora marcada, chegando o Dr. Nilo, foi imediatamente introduzido no salão da biblioteca. Como os Drs. Alfredo Rui e Batista Pereira ainda não tivessem chegado, permaneci, como era de hábito, perto do grande brasileiro.

Versou a entrevista sobre o apoio de Rui Barbosa à candidatura Seabra à vice-presidente, na chapa Nilo-Seabra. Depois dos rodeios políticos de praxe, pediu o Dr. Nilo Pessanha o apoio de Rui Barbosa para o Dr. Seabra, não só por ser baiano, como pela honra que daria à Bahia. O Conselheiro ouviu com atenção e em seguida respondeu que lamentava não poder aceitar a chapa pelos mesmos motivos que levaram o Dr. Seabra, em 1910, a negar apoio a Rui Barbosa à presidência da República e, como ele, Rui Barbosa, também era baiano. Dava, no entanto, liberdade a seus correligionários de escolher quem quisessem.

Saiu o Dr. Nilo Pessanha às 9 horas, acompanhando-o o Conselheiro até a porta. Às 10 horas chegou o Dr. Batista Pereira a quem Rui Barbosa leu uma carta a fim de ser por ele entregue, com urgência, ao Dr. Nilo Pessanha. Esta carta saiu publicada nos jornais da época e reproduzia a conferência entre os dois políticos.

Passaram-se os dias. E chegou a vez do Dr. Seabra… Tinha ele uma entrevista idêntica à do Dr. Nilo Pessanha. Veio com a mesma conversa de pedir apoio para a candidatura do Dr. Nilo. E o Conselheiro negou o seu apoio pelos mesmos motivos pelos quais o Dr. Nilo Pessanha, em 1910, lhe nega o seu apoio. Estava paga a dívida. Olho por olho, dente por dente. Coisas da política…” (p. 69-71)

“Coisas da vida….

A polidez era perfeita em Rui Barbosa.

Uma vez, chegando à Casa das Fazendas Pretas, antiga casa de modas, na Avenida, ponto de parada de seu carro, foi informado pelo Sr. Araújo, daquele estabelecimento, que Da. Maria Augusta tinha necessitado do carro, e por este motivo não podia mandar buscá-lo. Seguiu o Conselheiro a pé, até a Galeria Cruzeiro a fim de tomar o bonde que o conduzisse à sua residência. Ao e aproximar um elétrico, como o Conselheiro não estava certo se o mesmo passava na rua São Clemente, notando uma senhora parada, também à espera de condução, perguntou-lhe o Conselheiro:

– Minha Senhora, este bonde passa na rua São Clemente?

– Não sei dizer, senhor, eu também não sei ler! Disse a senhora acanhada.

À distância, um cavalheiro que assistia a cena, tendo reconhecido Rui Barbosa, aproximou-se, perguntando se precisava de alguma cousa.

E o Conselheiro risonho:

– Perguntei a esta senhora se aquele bonde passava na rua São Clemente e ela me respondeu que também não sabia ler.

O cavalheiro gozou com a resposta e mostrou ao Conselheiro o bonde Humaitá que vinha chegando”. (p. 72-73)

“As três últimas palavras…

No dia 27 de fevereiro [de 1923], Dona Maria Augusta mandou chamar Frei Celso, a fim de que Rui se confessasse. À cabeceira do Conselheiro encontrava-se o Dr. Correia de Lemos; levando um café para Dr. Lemos, perguntei se o Conselheiro também o desejava. Fez sinal que sim. Sai, e fui buscá-lo. Quando voltei, segurou a xícara, deu umas voltas com a colher, quis que o deitasse um pouco, pois estava sentado na cama, estendi-lhe as mãos para que se firmasse e ao procurar recostar na cama disse-me três palavras que não compreendi. O Dr. Correia de Lemos perguntou-me se tinha entendido o que o Conselheiro queria dizer. Disse-lhe que não. Disse-me o Dr. Lemos:

– Que pena, foram três palavras, as últimas, e não podemos saber.

E assim, a 1º de março de 1923, não podendo resistir aos padecimentos, deixou-nos para sempre Rui Barbosa.

Por uma coincidência que não nos é dado aprofundar, o relógio que havia trazido de Londres e que colocara na copa de sua casa, em São Clemente, parara às 8,45 da manhã, deixando marcada a hora em que Rui Barbosa expirou.

“A vida não tem mais do que duas portas; uma de entrada, pelo nascimento; outra de saída, pela morte. Ninguém, cabendo-lhe a vez, se poderá furtar à entrada. Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir a saída”. [Ruy Barbosa]

Rui continuará entre nós. Será eterno, porque procurou ensinar-nos que, sem justiça e sem liberdade, um povo será incapaz de viver.” (p. 125-126)

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*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
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O dia em que anuns viraram faisões

Luis Guilherme*

Foi na manhã de 17 de setembro de 2021, no Memorial dos Mártires, no povoado de Pintadas, em Ipupiara, na Chapada Diamantina, no dia em que esse espaço sagrado e cívico seria palco da cerimônia pela passagem do 50º aniversário da execução dos militantes da resistência Zequinha [José Campos] Barreto (1946-1971) e capitão Carlos Lamarca (1937-1971). Estávamos sozinhos na ocasião, visto que o espaço está sem zelador e, a meu pedido, o pároco Márcio Benevides autorizara nosso ingresso pelo portão de serviços, que fora deixado semi-aberto.

Pedi a Ronrom – Romilda Tavares, esposa do autor – para ficar sozinho no espaço em que o capitão foi metralhado e, de repente, ouvi barulho no meio do mato esturricado. Vi então, em fileira, pássaros com calda longa e imaginei que frei Bertolomeu Gorges (1948-2021), que zelara pelo espaço nos últimos 10 anos, adotara aves ornamentais, tipo faisões, para emprestar ao local um certo ar paradisíaco, tipo Shangri-La. Ledo engano. Jamais, apesar das férias em fazendas, vira anuns caminhando em grupo e jamais me pareceram tão grandes como os vi naquele instante

Não consegui fotografá-los. Creiam, todavia, no que lhes digo.

O contraste entre anuns e faisões, naquele espaço fatídico, é que a crendice popular associa o canto do anum ao presságio da morte. Eles atravessaram, um atrás do outro, em silêncio e ali, a cerca de dois metros deles, mantive-me quase estático.

Enfim, 50 anos depois de mais uma barbaridade do Estado brasileiro, o que vi foram anuns como se fossem aves ornamentais.

Frei Gorges, de bermuda e camisa, ao lado da cruz que marca o local onde Lamarca foi metralhado.
Frei Gorges no local onde Lamarca foi metralhado, foto de 2018

Cenário desfigurado – Retornei ao local que visitara em 2018, onde fotografei Frei Gorges em meio à ambientação que emprestava mais impacto ao local onde Lamarca foi executado, e o que encontrei foi descaracterização. Já não havia as fotografias do capitão e de Zequinha, e a capanga, semelhante àquela em que Lamarca carregava mantimentos, estava esfarrapada, assim como as bandeiras. O pé de Baraúna está irreconhecível – o fotógrafo Anizio Carvalho, agora com 91 anos, e que esteve no local, em 1971, horas depois da execução, diz que a árvore era Juá Babão –. As fotos de 2018 e de 2021 não negam as alterações.

Local onde Lamarca tombou, foto de 2021

Há sinais de má conservação do Memorial dos Mártires, obra que foi edificada com recursos, sobretudo, oriundos do Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, outorgado, em 2009, por fundação alemã ao Frei Luiz Flávio Cappio, Bispo da Diocese de Barra (BA). A obra foi inaugurada em setembro de 2013. Antes, porém, em 2010, houve o 2º Fórum de Direito à Memória e à Verdade, ocasião em que a diocese contava com a parceria da ADECOP – Associação do Desenvolvimento Comunitário de Pintada –; da CASEF – Cooperativa Agromineral Sem Fronteiras –; do Instituto Zequinha Barreto, que tem sede em São Paulo; da Paróquia São João Batista, de Ipupiara; e das prefeituras dos municípios vizinhos, Brotas de Macaúbas e Ipupiara.

A perspectiva de dias melhores para o Memorial passa pela escolha, pelo Bispo de Barra, Dom Cappio, do substituto de Frei Gorges. O estado em que ora o conjunto sacro-cívico se encontra não é grave. Com correções das avarias, tudo retornará ao que era antes: espaço limpo, iluminado e de portas abertas. Nenhum dano haverá à estatuária, cujo destaque é aquela em que Zequinha carrega Lamarca nos ombros, nem às bandeiras e sequer à iluminação externa da área monumental.

Praça Capitão Carlos Lamarca – Se o Memorial homenageia mártires no plural, não sendo, portanto, monumento exclusivo a Zequinha e a Lamarca, isso não acontece com o logradouro do povoado de Pintadas em homenagem ao capitão executado na vizinhança. A obra é de 2007, na primeira gestão do prefeito Ascir Leite Santos, conforme estampa a placa inaugural. O logradouro está identificado com outras placas localizadas nos extremos opostos da praça, onde há o monumento ao capitão e o teatro-arena para pequenos espetáculos.

Estátua de Lamarca inaugurada em 2007

Não consegui identificar o autor da estátua, mas percebe-se que o artista não buscou ser fiel nem ao rosto nem ao corpo do esculpido. Ademais, o monumento permite a leitura de que Lamarca estaria caminhando num trampolim…

Que se preserve tudo como foi feito e que a História avalie o personagem homenageado e, também, que respeite a tantos que o enxergam como extremoso amante do nosso país.

Pintadas, pela manhã e pela tarde – Após nossa visita matinal a Pintadas, retornamos para Brotas de Macaúbas para mais uma refeição no Organoléptico, o restaurante de Mary e de Dadá (Aderbal). Logo em seguida, retornei a Pintada, em companhia da colega jornalista Thais Barreto, sobrinha de Zequinha, a cuja família, em 1971, o Estado brasileiro destinou bárbaro tratamento que resultou em mortes e pavor que até hoje ecoa na região. O avô de Thais, o já ancião José Barreto, foi colocado de cabeça para baixo, do lado de fora de helicóptero, em sobrevoo no povoado de Buriti Cristalino, onde a família vivia do garimpo.

Bandeira esfarrapada, no Marco dos Mártires

Fomos para a cerimônia religiosa no Memorial dos Mártires, de que participaram poucas pessoas, até porque vigia as regras sanitárias exigidas na pandemia. A missa foi concelebrada pelo bispo auxiliar de Oliveira dos Campinhos e pelos párocos de Brotas, Ipupiara e Buritirama. Comoveu-me a homilia do padre Welliton M. de Souza, de Brotas de Macaúbas, e as músicas cantadas e tocadas por Karina, Maria Cristina, Marta (violão) e Silvio (percussão). O culto foi acompanhado por moradores de Pintadas e contou com a presença do deputado estadual Jacó (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia.

A ausência do Bispo de Lapa, Dom Luiz Flávio Cappio, foi sentida, até porque ele esteve presente nas celebrações anteriores. Curioso a respeito, dirigi-me a ele por e-mail e ele, correto e generoso, me respondeu:

“Paz e bem!

Muito agradecido por sua comunicação. O senhor tem toda razão. Monsenhor Bertolomeu faz muita falta.

Pe. Márcio, pároco de paróquia de Ipupiara, faz o possível de cuidar do espaço. Falta-nos uma pessoa que, como Mons. Bertolomeu, assuma de ser o guardião do Memorial. Outra consequência da pandemia: Monsenhor Bertolomeu faleceu por consequência do estresse causado pela pandemia.

Embora muito desejasse estar, não me foi possível de forma alguma. Celebramos aqui na Barra, sede da Diocese, os 50 anos da morte de Zequinha e Lamarca.

Muito agradecido pela sua ida.  Acredito que outros também tenham sentido o mesmo que o senhor. Tudo isto faz parte de nossas limitações.

Com gratidão e estima,

+Frei Luiz”

Enfim, vamos respeitar os presentes e os ausentes e “amar o próximo como a si mesmo”.

Marco da celebração de 2010

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*Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É 1º vice-presidente da ABI. [email protected]

Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
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Artigos

Reflexões sobre a pauta jornalística por Luis Guilherme Pontes Tavares

Nutro há tempo a curiosidade sobre a pouca importância que é dada à pauta jornalística. Não entendo a razão desse tratamento. A curiosidade tem crescido com o avanço e a popularização das novas tecnologias. Com elas, o pauteiro de jornal impresso, rádio, televisão e webjornal, caso fosse mais valorizado na hierarquia das empresas de comunicação, seria um dos profissionais melhor equipados e bem pagos. Em recente postagem do http://233grados.lainfacion.com/blog há a notícia de que a Universidade do Missouri (EUA) ministra desde março deste ano a disciplina Science Investigative Reporting: Drone Journalism, cujo objetivo é instruir alunos de jornalismo na utilização desse tipo de “veículos aéreos não tripulados”.

O pauteiro nota 10 dos dias de hoje teria que ser um profissional que dominasse inúmeras ferramentas de investigação. Teria que ser hábil no manejo do Google Earth, Webcams, Waze e assemelhados. Hábil na varredura dos milhares de blogs e sites afins com o objeto de interesse. Teria que manter uma rede viva de fontes, uma pelo menos em cada bairro da cidade, em cada município do seu Estado, além do olhar arguto e filtrante para transitar rápido no sem número de veículos nacionais e internacionais de notícia.

É lamentável que não haja nos cursos de comunicação alguma disciplina que trabalhe mais a formação do pauteiro. O treino se resume à prática laboratorial. Tampouco a pauta é tema de vasta bibliografia específica. É comum encontrá-la como parte de algum capítulo num livro mais geral sobre a rotina da produção jornalística. No entanto, com as novas tecnologias, o pauteiro tem que ser reinventado.

O banco de dados – textos e ilustrações – agora é online. Ali o pauteiro pode armazenar e consultar as pautas anteriores, ali ele pode constituir um banco de ideias para novas pautas, organizados, quem sabe?, por estação do ano ou com múltiplas possibilidades de resgatar cada uma delas: data, bairro, tema, relevância e assim por diante.

A pauta pode ser disponibilizada online para o repórter e acessada em micro, em smartphone ou em tablet. Ela pode ser enriquecida com links os mais diversos, de modo que o repórter possa chegar à fonte ou ao evento com substancial conhecimento a respeito.

Em 1989, na Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), enquanto cursava o mestrado em Ciências da Comunicação, apresentei na disciplina “Editando: da pauta ao layout” o trabalho “Rascunho da história da pauta jornalística no Brasil”. Há quase 25 anos, a pauta já provocava-me inquietação e sobre ela previ o óbvio: “O pauteiro, que utiliza com frequência o telefone e o telex, caminha rapidamente para utilizar o computador como equipamento do seu dia-a-dia, obtendo nomes, endereços, recuperando pautas antigas, consultando as sugestões de pautas adequadas para cada dia do ano e assim por diante. Nesse sentido as televisões já apressam o passo”.

Na ocasião conversara a respeito de pauta com dois jornalistas brasileiros da melhor qualidade: Armando Nogueira, então na TV Globo, e Paulo Patarra, naqueles dias na TV Cultura de São Paulo. Ambos situaram a década de 1950 como a época inaugural da pauta no jornalismo brasileiro. Avessos à pauta no jornalismo impresso, ambos arrefeciam a reação a ela no âmbito do jornalismo televisivo. No final da década de 1980, quando os entrevistei, já se tornara comum o posto de pauteiro-produtor na televisão brasileira.

É necessário que a academia e o mercado repensem o papel fundamental que o pauteiro pode exercer na oxigenação diária do porvir jornalístico. É o que penso e é o que pensava há cerca de um quarto de século, conforme lê-se neste trecho com que encerro esta provocação: “Sem dúvida, o pauteiro enfeixa hoje nas mãos com que datilografa as pautas um boa porção de poder. Seu compromisso – como o é o de todos os jornalistas – é com o público. Esse poder não o faz manipulador de repórteres-fantoches. Mas um estimulador. Naquele pedaço de papel em que lança cada pauta deve haver sempre a fagulha da vida, que leva o repórter à rua com entusiasmo pelo novo dia e o trás de volta à redação com muito, muito mais vida”.

Luis Guilherme Pontes Tavares é jornalista e produtor editorial. É diretor de Cultura da ABI.

 

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