A trajetória do jornalista, professor e historiador Luís Henrique Dias Tavares foi tema de uma palestra realizada na sede da Associação Bahiana de Imprensa, nesta quarta-feira (11), em mais uma edição do “Temas Diversos”, um ciclo de debates realizado a cada reunião mensal da Diretoria da entidade. A atividade integrou as homenagens ao centenário de nascimento do pesquisador, considerado um dos mais importantes nomes da historiografia baiana.
Intitulada “A trajetória de Luís Henrique Dias Tavares e a sua contribuição para a cultura baiana”, a palestra foi conduzida pelo historiador Wendel Miranda Santos, que apresentou resultados de pesquisas sobre a formação intelectual, a atuação jornalística e a produção historiográfica de Luís Henrique.
Durante a exposição, Miranda destacou diferentes momentos da vida do intelectual baiano, abordando desde sua juventude e atuação na imprensa até sua consolidação como professor e historiador.
Juventude, jornalismo e militância
Um dos episódios lembrados durante a palestra foi a prisão de Luís Henrique Dias Tavares, em 1948, quando ele atuava como jornalista do jornal O Momento. Na ocasião, ele e outros profissionais foram detidos após um comício realizado na Praça da Sé, em Salvador. Segundo relatos apresentados durante o encontro, os jornalistas foram conduzidos à então Secretaria da Segurança Pública, localizada na região da Piedade.
De acordo com o primeiro vice-presidente da ABI, Luis Guilherme Pontes Tavares, que acompanhou a atividade, o episódio marcou profundamente a trajetória do historiador. Emocionado, ele dividiu alguns episódios vividos pelo pai e agradeceu a Wendel Miranda pelo rigor acadêmico e cuidado com a pesquisa.
“Em 1948, quando ele foi preso aqui na Praça da Sé, junto com outros jornalistas, eles foram levados para a Secretaria da Segurança, na Piedade. No percurso, foram conduzidos deitados no jipe da polícia e, ao chegar, passaram pelo chamado ‘corredor polonês’, onde os policiais davam tapas nos que entravam”, relatou. Segundo ele, o historiador chegou a sofrer represálias durante a detenção e só foi libertado após intervenção de familiares.
“Ele chegou a reagir quando foi obrigado a realizar tarefas dentro da delegacia. A libertação só aconteceu depois que o primo dele, o jurista Nestor Duarte, interveio junto ao governo”, contou.
Mobilização da imprensa
O episódio também motivou setores da mídia e chegou ao conhecimento da Associação Bahiana de Imprensa, que acompanhou o caso. Wendel Miranda destacou na apresentação que o jornal O Momento chegou a publicar uma carta-denúncia à ABI, para denunciar a repressão a jornalistas, e a entidade se posicionou em defesa dos profissionais e da democracia.
Registros da época indicam que jornais denunciaram a prisão e classificaram como injusta a detenção dos profissionais. A repercussão contribuiu para pressionar as autoridades pela libertação dos jornalistas envolvidos.
Produção intelectual e carreira acadêmica
Wendel Miranda Santos enfatizou que a trajetória de Luís Henrique Dias Tavares não pode ser compreendida apenas a partir de sua produção historiográfica, mas também por sua intensa atuação na vida cultural e intelectual da Bahia.
Além do trabalho como jornalista, ele construiu uma carreira acadêmica consolidada como professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde ensinou por décadas e participou da formação de diversas gerações de pesquisadores.
Segundo a historiadora Lina Aras, o professor também desempenhou papel importante na estruturação institucional da Universidade. “Ele foi jornalista de O Momento, literato, historiador e administrador. Foi um dos primeiros coordenadores do curso de pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA, além de exercer funções importantes na área cultural”, afirmou a professora Lina, que conviveu com o historiador.
Família em pauta
Durante o debate, Lina também compartilhou lembranças pessoais de conversas com Luís Henrique, trazendo sua dimensão humana e o impacto das experiências políticas vividas por sua geração.
“Ele me confessou uma vez que os piores dias da vida dele foram os dias em que esteve preso e não pôde passar o Natal com os filhos. Era uma pessoa muito centrada, mas profundamente ligada à família”, relatou.
De acordo com a historiadora, pesquisadores também vêm trabalhando no levantamento de textos pouco conhecidos do autor, com o objetivo de ampliar o acesso à sua obra. “Estamos reunindo artigos e escritos que não estão facilmente disponíveis para organizar uma coletânea que possa alcançar um público maior”, adiantou.
Influência na formação de gerações
O historiador Sérgio Guerra Filho falou do impacto duradouro de Luís Henrique Dias Tavares na formação de pesquisadores e professores. Para ele, além da relevância de sua obra, o intelectual deixou uma marca importante na cultura acadêmica.
“Luís Henrique é desses personagens que, cada vez que se descobre algo novo, surge outra dimensão de sua trajetória. Ele foi extremamente influente na formação de gerações de historiadores”, afirmou.
Em sua análise, a generosidade intelectual do professor também se refletia em sua produção escrita. “Nos textos dele, muitas vezes aparecem indicações de fontes e caminhos de pesquisa, como um convite para que novos estudiosos continuem investigando os temas que ele iniciou”, observou.
Pesquisa revela novos documentos
Ao comentar a palestra, Luis Guilherme Pontes Tavares, filho do professor, destacou que pesquisas recentes têm revelado documentos pouco conhecidos sobre a trajetória dele. Entre eles estão correspondências preservadas em acervos culturais da Bahia.
“Wendel teve a felicidade de localizar correspondências depositadas pelo próprio professor na Academia de Letras da Bahia. Há fatos da vida dele que eu próprio desconhecia”, afirmou.
Ele também ressaltou que ouvir relatos sobre momentos difíceis da vida do pai desperta sentimentos profundos. “Falar das prisões que ele enfrentou é algo doloroso, não apenas para mim, mas para toda uma geração que viveu experiências semelhantes naquele período”, disse.
Legado para a historiografia baiana
Considerado um dos principais intérpretes da história da Bahia, Luís Henrique Dias Tavares dedicou décadas ao estudo da formação social, política e cultural do estado.
Sua obra permanece como referência para pesquisadores e estudantes, além de ter contribuído para consolidar uma tradição de estudos históricos comprometidos com a investigação documental e a interpretação crítica do passado baiano. “O livro ‘A História da Bahia’ é leitura obrigatória para quem deseja conhecer a nossa história”, reforçou Wendel Miranda.