


A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) completará 96 anos de existência no próximo dia 17 de agosto, mas aproveitou a Reunião Ordinária de sua Diretoria para celebrar, na manhã desta quarta-feira (12), as vocações que a acompanham desde 1930: defender a liberdade de imprensa e guardar a memória do jornalismo baiano. A solenidade comemorativa pelos 96 anos da ABI e pelos 50 anos do Museu de Imprensa reuniu associados, jornalistas, pesquisadores, autoridades e convidados.
A ABI atravessou diferentes momentos da história política e social do país sem renunciar a sua missão institucional. Ao longo de quase um século, consolidou-se como uma das mais tradicionais entidades representativas da imprensa brasileira, atuando na defesa do exercício profissional do jornalismo, da democracia, dos direitos humanos e da preservação do patrimônio documental da comunicação baiana.
Primeira mulher a presidir a ABI, a jornalista Suely Temporal, afirmou que os 96 anos da instituição representam uma trajetória que precisa ser respeitada, mas também um compromisso com o futuro.

“Liberdade vem acompanhada de responsabilidade e ética”, afirmou. Para a presidente, embora a missão histórica da ABI permaneça atual, os desafios enfrentados pela imprensa se transformaram profundamente com a velocidade das redes sociais, a desinformação, a inteligência artificial e a circulação massiva de conteúdos sem apuração.
Suely defendeu mais jornalismo profissional, educação para a informação e responsabilidade na produção e no compartilhamento de conteúdos. Também ressaltou que a liberdade de imprensa não pertence a um campo político específico.
“A liberdade de imprensa não pertence à esquerda, nem à direita, nem ao centro. Ela pertence à democracia”, afirmou.
Segundo a presidente, a ABI deve permanecer como espaço de diálogo, onde diferentes perspectivas possam conviver em torno de princípios comuns. A entidade, afirmou, precisa estar aberta aos jornalistas e aos profissionais de comunicação que atuam nas diferentes plataformas.

O presidente da MídiaCom Bahia, Augusto Correia Lima, falou da ampliação da MídiaCom, a convergência de princípios com a ABI e a divulgou a campanha em defesa da imprensa livre diante das fake news. “Na MídiaCom, abraçamos os mesmos ideais da ABI, a defesa intransigente dos profissionais de imprensa, da notícia como ela é e de uma imprensa livre e soberana. Neste momento, essa defesa é ainda mais necessária diante do avanço das fake news, que podem destruir reputações sem que haja possibilidade de reparação. Estamos na primeira fileira em defesa da imprensa livre”, destacou.
Presidente da Assembleia Geral da ABI, o jornalista Walter Pinheiro lembrou episódios da história da imprensa e da própria entidade. Ele destacou as dificuldades enfrentadas pelo jornalismo durante o período da ditadura militar e a necessidade permanente de defender a liberdade de expressão.

Pinheiro também ressaltou a tradição de dirigentes que conduziram a instituição ao longo de sua história, citando nomes como Jorge Calmon, Afonso Maciel, Samuel Celestino, Ernesto Marques e sua própria passagem pela presidência da ABI, entre 2011 e 2020.
Para ele, a celebração dos 96 anos é também um momento de reflexão diante dos desafios atuais. Em referência à imagem utilizada por Afonso Maciel para definir a missão da imprensa, falou sobre a necessidade de continuar “trilhando um fio da navalha” diante de um ambiente marcado pela polarização.
“Este é um salão de trocas de ideias permanentes, é um foro permanente de ideias”, afirmou Pinheiro, defendendo que a ABI continue sendo uma casa aberta ao diálogo e à defesa do Estado Democrático de Direito.
A preservação do patrimônio foi um dos pontos centrais do pronunciamento de Suely Temporal. A presidente lembrou que a ABI guarda parte significativa da memória da imprensa e, consequentemente, da própria história da Bahia.
O Museu de Imprensa, que completa 50 anos, é um dos principais símbolos desse compromisso. Criado em 1976, o equipamento foi pioneiro entre as instituições do gênero mantidas pela iniciativa privada no Brasil. Seu acervo reúne documentos, fotografias, jornais, revistas, objetos e registros relacionados aos diferentes meios de comunicação do estado.
A presidente também chamou atenção para o Museu Casa de Ruy Barbosa, localizado na Rua que leva o nome do jurista, nas proximidades da sede da ABI. O espaço permanece fechado e necessita de recursos para obras de recuperação e reabertura. Parte do acervo que estava no imóvel foi transferida para a sede da Associação como medida de preservação.
Outro patrimônio que exige atenção é o próprio Edifício Ranulfo Oliveira. Localizado na Praça da Sé, no Centro Histórico de Salvador, o prédio integra a história política da Bahia e já abrigou o plenário da Assembleia Legislativa antes da transferência do Legislativo para o Centro Administrativo da Bahia.
Hoje, além da sede da ABI, o edifício abriga espaços dedicados à cultura, à pesquisa e à memória, como a Biblioteca de Comunicação Jorge Calmon, o Laboratório de Conservação e Restauro e o Museu de Imprensa.
“Uma entidade com essa história e com esse patrimônio precisa encontrar formas de garantir sua manutenção e, ao mesmo tempo, ampliar sua capacidade de atuação”, destacou Suely.
A sustentabilidade financeira, segundo a presidente, é um dos principais desafios para os próximos anos. Entre as estratégias estão a ampliação da base de associados, a busca por patrocínios para o site e a revista Memória da Imprensa, além do avanço nas negociações relacionadas ao imóvel-sede.
A missão da ganhou um novo capítulo em 1976, quando foi inaugurado o Museu de Imprensa. Idealizado dois anos antes pelo então presidente Afonso Maciel Neto, o equipamento nasceu em um espaço de menos de vinte metros quadrados, mas com uma ambição muito maior: reunir documentos, objetos e narrativas capazes de contar a história da imprensa da Bahia.
“O Museu da Imprensa foi uma iniciativa de Afonso Maciel Neto, então presidente da entidade, em 1974. O historiador José Calazans foi convidado para elaborar o projeto e cuidar da curadoria. Posteriormente, a historiadora e folclorista Hildegardes Vianna assumiu esse trabalho, organizando o acervo com o apoio da museóloga Lygia Sampaio”, destaca o jornalista e pesquisador Nelson Cadena, 2º secretário da ABI e estudioso da história da imprensa baiana.
Cadena lembra que o museu inaugurado em 17 de agosto de 1976 se tornou um marco nacional. “Foi o primeiro Museu de Imprensa criado pela iniciativa privada no Brasil”, ressalta. Seis anos depois seria inaugurado o Museu da Imprensa Nacional, em Brasília.
Ao longo de cinco décadas, o acervo cresceu por meio de doações de jornalistas, familiares, empresas de comunicação e pesquisadores. Fotografias, jornais, revistas, equipamentos, documentos históricos, caricaturas, medalhas e objetos pessoais passaram a narrar a evolução dos meios de comunicação na Bahia, preservando a memória de veículos impressos, emissoras de rádio e televisão e de profissionais que ajudaram a construir a história do jornalismo baiano.
O Museu de Imprensa passou por uma profunda requalificação e foi reinaugurado em 2021, em um espaço restaurado, dotado de laboratório de conservação e restauro e de uma vitrine voltada para a Rua Guedes de Brito.
Ex-presidente da ABI, Ernesto Marques fez um discurso contundente sobre o momento vivido pela instituição e a responsabilidade dos jornalistas em relação ao seu futuro. Diante de antigos e novos integrantes da entidade, defendeu a necessidade de união da categoria para fortalecer e preservar a Associação.

A manifestação do ex-presidente trouxe para a celebração uma dimensão que ultrapassou a memória. Ao lembrar a trajetória construída por diferentes gerações de jornalistas, Marques chamou atenção para a necessidade de que a própria categoria reconheça a importância da ABI e participe ativamente de sua defesa.
A fala ganhou especial significado diante dos desafios de sustentabilidade enfrentados pela entidade e do compromisso de manter em funcionamento um patrimônio que ultrapassa os limites de sua sede. A ABI preserva acervos históricos, promove atividades culturais e mantém espaços destinados ao debate, à pesquisa e à formação.
Entre os presentes estavam o presidente do Worldwatch Institute e diretor da ACBEU, Eduardo Athayde, a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia (Sinjorba), Fernanda Gama, o vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Moacy Neves, e o presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), Joaci Góes, além de jornalistas, pesquisadores, representantes de entidades culturais e amigos da instituição.
Antônio Heleno Caldas Laranjeira*
Escrevo estas linhas com o peso e a leveza de quem viu o mundo mudar pelas páginas de um impresso feito no coração da Chapada Diamantina.
Enquanto os algoritmos oferecem respostas rápidas e, muitas vezes, desprovidas de alma, o Guia de Viagem Chapada Diamantina celebra seus 25 anos entregando o que a tecnologia ainda não consegue simular: a interpretação sensível de um território de 38 mil quilômetros quadrados.
Vivemos em um tempo de abundância de dados e escassez de sentido. O excesso de telas e a velocidade das buscas online muitas vezes nos afastam da essência humana e da conexão real com o lugar. É neste cenário que o papel impresso ganha uma nova função política e jornalística.
Ao contrário do fluxo infinito das redes sociais, o guia propõe uma curadoria deliberada, um inventário afetivo construído coletivamente por 108 humanos, incluindo o olhar atento de 64 fotógrafos que se dedicaram a capturar não apenas a paisagem, mas a metamorfose que a Chapada provoca em quem a visita.
Nesta edição comemorativa, não entregamos apenas um manual de trilhas ou uma lista de logradouros. Oferecemos o resultado de uma imersão profunda em temas que exigem contexto e respeito histórico.
Falamos de uma arte rupestre de 12 mil anos na Serra do Gentio, de um santuário de 400 espécies de aves e do reconhecimento do Jarê como Patrimônio Cultural do Brasil.
São informações que demandam a apuração jornalística e a colaboração de associações de condutores e especialistas locais, algo que nem as melhores IAs são capazes de organizar e criar com as doses devidas de profundidade e de verdade.
O produto impresso funciona hoje como um convite à “pausa verdadeira”, com direito a um mapa impresso belíssimo. Ele é o fio condutor para quem deseja desconectar do excesso de informação e reencontrar a própria essência humana através da natureza e do tempo simples das cidades do interior.
Ao folhear as páginas impressas em alta qualidade do papel à tinta, quem lê e vê percebe que a verdadeira sofisticação em 2026 reside na capacidade de interpretar o território com afeto e responsabilidade.
Que este projeto de jornalismo de viagem e de marketing turístico seja uma evidência de que, mesmo em um mundo digital, nada substitui a força da experiência humana compartilhada e documentada com a perenidade (de décadas) da impressão em papel. Mas se você preferir, o guia está também disponível na versão e-book.
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*Antônio Heleno Laranjeira é jornalista pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), mestre em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Nossas colunas contam com diferentes autores e colaboradores. As opiniões expostas nos textos não necessariamente refletem o posicionamento da Associação Bahiana de Imprensa (ABI)
Na noite em que o Centro Histórico de Salvador se fez ainda mais movimentado pela literatura, a música encontrou seu próprio caminho para contar histórias. No Auditório Samuel Celestino, a Associação Bahiana de Imprensa abriu as portas, nesta quinta-feira (6), para uma edição especial da Série Lunar, integrada à programação da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) 2026.
Em uma apresentação que aproximou a música erudita da tradição popular brasileira, o palco recebeu o duo Arcoar, formado por Geisiane Ramos (violino) e Kayandra Araújo (violão); o duo de violões Araújo Reis, formado por Kayandra e Zezinho Reis; além de apresentações solo dos violonistas Alexandre Adami, Zezinho Reis, Juan Portugal e Mateus Bacelar. Todos os músicos são estudantes da Escola de Música da UFBA (Emus), parceira da ABI no projeto educativo e cultural.
A programação transitou por diferentes períodos e linguagens, reunindo obras de compositores como Heitor Villa-Lobos, Joaquín Rodrigo, Agustín Barrios e Leo Brouwer, além de choros e composições autorais.
A escolha de integrar a Série Lunar à programação da Flipelô criou uma noite de convergências. De um lado, a literatura ocupando ruas, praças e espaços históricos da cidade. Do outro, a música instrumental preenchendo o oitavo andar do Edifício Ranulfo Oliveira, com a Baía de Todos-os-Santos como testemunha.
Um dos momentos da noite foi a participação de Zezinho Reis, que apresentou ao público uma composição de seu repertório autoral, “Contra a Maré”, lançada recentemente nas plataformas digitais. A apresentação marcou também a oportunidade de levar ao palco da Série Lunar um trabalho que atravessa sua trajetória como violonista, educador e arranjador.
“Foi muito especial poder apresentar essa música aqui, dentro de um projeto que tem uma história tão bonita de aproximação entre a música e o público. A Série Lunar tem esse caráter de encontro, de escuta, e trazer uma composição autoral que acabou de chegar às plataformas para esse espaço foi muito significativo para mim. É uma oportunidade de compartilhar um trabalho que representa um momento importante da minha trajetória.”
A noite também marcou uma experiência especial para Kayandra Araújo e Geisiane Ramos, que levaram ao público o trabalho do duo Arcoar. A formação reúne o violão de Kayandra e o violino de Geisiane, duas trajetórias musicais que se encontram na pesquisa de diferentes possibilidades para a música de concerto e para a música brasileira.
Para Kayandra, tocar na Série Lunar durante a Flipelô representou a possibilidade de apresentar o trabalho do duo em um ambiente de forte circulação cultural, diante de um público interessado em diferentes formas de expressão artística.
Geisiane destacou a atmosfera de proximidade proporcionada pelo projeto. Para a violinista, a dimensão intimista da Série Lunar favorece uma relação mais direta entre músicos e plateia, permitindo que a apresentação seja vivenciada como um encontro.
A apresentação foi acompanhada pela presidente da ABI, Suely Temporal, que prestigiou a programação ao lado da diretora de Cultura da entidade, Yara Vasku, atual coordenadora da Série Lunar. A noite também teve a presença da jornalista Amália Casal, ex-coordenadora do projeto, que recebeu um agradecimento especial de Suely Temporal pela contribuição à construção e consolidação da iniciativa.
A homenagem representou um gesto de continuidade. Criada em 2019 a partir da parceria entre a ABI e a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (Emus/UFBA), a Série Lunar se tornou um espaço permanente de circulação de músicos, estudantes e professores, aproximando formação acadêmica, produção artística e público. Desde 2024, o projeto conta também com o apoio de empresas e instituições comprometidas com a cultura e a educação. Esta edição conta com o apoio da Associação Cultural Brasil–Estados Unidos (Acbeu).
A passagem da coordenação de Amália para Yara traduz uma nova etapa sem romper com a memória construída ao longo dos anos. Em maio deste ano, ao acompanhar a abertura da temporada 2026, Amália já havia destacado a maturidade alcançada pelo projeto e a chegada de uma nova coordenação como oportunidade de renovação.
Também prestigiou a apresentação o jornalista e agente cultural Clarindo Silva, figura ligada à memória e à vida cultural do Centro Histórico de Salvador.