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Aos 466 anos, Salvador ameaçada de ser ‘dividida ao meio’ pelo metrô, diz especialista

A questão urbana de Salvador é hoje um ponto dramático, abrangendo e integrando um imenso conjunto de problemas sociais e econômicos em sua expressão espacial e com forte impacto ambiental. Às vésperas de comemorar 466 anos de fundação, celebrados em 29 de março, a capital se depara com mais um entrave que envolve a mobilidade urbana, apontada por especialistas como um dos problemas que mais afligem os soteropolitanos. O secretário municipal de Urbanismo, Silvio Pinheiro, acaba de conceder a Licença Ambiental Unificada para dar início às obras do metrô de Salvador. Publicada no Diário Oficial do Município (DOM), a portaria para a Companhia de Trens da Bahia (CTB), terá validade de três anos e concede a licença para obras para a linha 2 do metrô na Avenida Paralela, que chegará até o município de Lauro de Freitas. A notícia divide opiniões entre estudiosos da área, que avaliam as consequências da implantação e se mostram preocupados em garantir que o canteiro da Avenida Paralela não sofra uma intervenção como a ocorrida no canteiro central da Avenida Bonocô, cuja construção suspensa é considerada um “trambolho” por arquitetos e urbanistas.

“Entre o Acesso Norte e a Rodoviária o metrô correrá ao nível do solo e em um elevado de 200m. A partir dali, seguirá pelo canteiro central da Paralela até o Aeroporto e Lauro de Freitas. Como a Paralela tem muito pouca ocupação, ele vai funcionar mais como um trem suburbano que metrô e criará uma barreira intransponível ao nível do solo de 19,5 km separando a cidade rica da orla do Atlântico da cidade pobre do Miolo (…) Nem Soweto em Johannesburg foi tão segregada durante o apartheid”, explica o arquiteto e professor universitário Paulo Ormindo de Azevedo, no artigo “Dividindo Salvador ao meio”, publicado no último dia 15 pelo Jornal A Tarde. No texto, além de alertar para o risco de se dividir ao meio a cidade, ele lança questionamentos de ordem socioeconômica.  “Será que o único critério para concessão de obras públicas é o de menor preço e facilidade para a empreiteira, que depois é superfaturado com aditivos e a obra abandonada na metade, como ocorreu na linha 1? Será que a destruição de uma avenida e a divisão de uma cidade ao meio com muros e alambrados não tem um passivo socioeconômico muito maior que um trem suburbano deficitário?”

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metrô nos trilhos-A Tarde
Metrô de Salvador, cuja Linha 1 levou 15 anos para ser entregue à população, é apelidado de ‘calça-curta’ – Foto: A Tarde

“Com a transferência do metrô em 2013 para o Estado, ocorreu uma mudança radical. O metrô não vai mais passar na área de maior concentração de serviços, população e transito de carros. Com isto vão continuar os engarrafamentos”, afirma Paulo Ormindo, crítico frequente do projeto atual. No entanto, o especialista defende que há outra solução. “Ao longo da Paralela, o metrô poderia correr num “falso túnel”. “Esta solução consiste em bater estacas nos dois lados da via, fundir uma laje a 50 cm abaixo do solo atual, refazer o gramado e escavar o túnel. Solução barata, pois não necessita de desapropriações, tatuzão para furar rochas, nem estancar lençol freático. Não perderíamos o parque longitudinal e os retornos e evitaríamos a poluição sonora e visual do projeto atual”. Segundo ele, o Ministério Público Federal pode dar outro rumo a este projeto, pois o processo sobre indícios de fraude na licitação original de 1999 não foi parado. Na composição acionaria do grupo vencedor da atual licitação estão empreiteiras do imbróglio Consorcio Metrosal, envolvidas também no processo Lava Jato. “Pau que nasce torto morre torto, diz o provérbio”.

Favorável à construção do metrô, A. Luís, pesquisador em transporte metroviário e representante do movimento “Salvador sobre Trilhos”, cujo mote é “Mobilidade urbana sustentável já!”, discorda de Paulo Ormindo. Para ele, a obra é ambientalmente e socioeconomicamente viável. “Participei de inúmeras audiências públicas, debates e reuniões. Trata-se de um sistema de baixíssimo impacto ambiental que utiliza energia limpa e a sua implantação no corredor da Av.Paralela, o seu maior trecho, terá a implantação dos trilhos em solo natural, sem a necessidade de pavimentação asfáltica ou de concreto. A separação do corredor será feita através de cerca viva, que não causará danos ambientais, como a impermeabilização do solo e a elevação da temperatura ambiente no corredor. Economicamente é viável porque a Av. Paralela é um dos maiores polos geradores de viagens e tráfego de Salvador, além da ligação Metropolitana SSA/Lauro de Freitas, lembrando que, por ser uma PPP [Parceria Público-Privada], nenhuma empresa se arriscaria em um projeto de tamanha magnitude que não tivesse viabilidade econômica”, defende.

metrô inacabado“É preciso ter fé para salvar a Paralela”, destaca o jornalista Luís Augusto Gomes, no blog Por Escrito. “Nesse caso, deveriam todos os soteropolitanos, mesmo os que não professam religião, unirem-se em oração para que os corações dos dois mandatários sejam iluminados e eles não perpetrem esse atentado contra a cidade. Desde que o assunto entrou na pauta, há alguns anos, chamamos a atenção para aspectos negativos de uma obra dessa envergadura, especialmente o custo e a dificuldade de execução na maior avenida da capital, tendo como parâmetro o metrô calça-curta do Bonocô, de 15 anos e cinco quilômetros. Mas destacamos também a questão estética e ambiental, apontando o crime social que seria acabar o canteiro central da Paralela, com seus gramados, jardins, árvores e lagoas, sem falar nas formações rochosas de grande beleza”, afirma o jornalista, que em 2013 chegou a compor um poema sobre o assunto, intitulado “Elegia para a Avenida Paralela”:

Adeus, língua esplêndida sobre a mata

que deste a Salvador um norte. 

Tua descendência é forte,

e por onde através de ti se ande

vê-se que a cidade expande 

É gostoso ainda percorrer

quilômetros de gramados, pedras e lagoas

e ver pessoas

no sobrevoo das passarelas. 

Dentro em breve virão as máquinas e a destruição,

e desabará tua majestade de suprema via urbana. 

Não mais terás árvores que aceitem passarinhos

e os caminhos

desaparecerão. 

Morte

até para a pista de esporte. 

A paisagem de teu imenso canteiro,

se não houver atraso e corrupção,

dará lugar ao espanto do metrô,

arrebentando tudo, pisando as flores.

 

*Informações do blog ‘Por Escrito’.

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Tribunal de Contas da União vai julgar falhas em obras do metrô de Salvador

O metrô de Salvador – uma obra que se arrasta há 13 anos e já consumiu R$ 1 bilhão – está na mira do TCU (Tribunal de Contas da União) por indícios de superfaturamento e falhas na construção. Investigada por formação de cartel no setor de ferrovias em São Paulo e Distrito Federal, a Siemens integra o consórcio responsável pela obra, ao lado da Camargo Corrêa e da Andrade Gutierrez.

Em auditoria concluída no final de 2012, o TCU apontou a existência de um superfaturamento de R$ 166 milhões na obra (R$ 400 milhões, em valores corrigidos).

O tribunal agora aguarda as defesas do consórcio, da CTS (Companhia de Transporte de Salvador) e da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos) para levar o caso a julgamento, que pode condenar dirigentes ao ressarcimento do suposto prejuízo. Todas as empresas e os órgãos citados negam a existência de irregularidades.

Iniciada em 1999, a obra da linha 1 do metrô já tem 20 aditivos contratuais e é alvo de duas ações movidas pelo Ministério Público Federal, que aponta fraude na licitação e formação de cartel.

A obra foi incorporada ao PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do governo federal em 2007, na gestão do presidente Lula. Em abril deste ano, a Prefeitura de Salvador, no governo de ACM Neto (DEM), transferiu a administração ao governo do Estado, de Jaques Wagner (PT), por meio de um acordo.

O TCU, contudo, recomendou ao governo do Estado que não aceite essa transferência por concluir que existem falhas na construção. O monitoramento mais recente do órgão apontou infiltrações, um trecho inacabado, divergências entre execução física e a financeira e problemas de garantia.

E enquanto a linha 1 está prometida para sair até a Copa, embora ainda envolta em problemas, o governo da Bahia abrirá na próxima semana a licitação da linha 2, com modelo de PPP (parceria público-privada) e investimento previsto de R$ 4 bilhões.

Outro lado

O consórcio Metrosal negou, em nota, que tenha havido sobre preço ou pagamentos irregulares na obra do metrô de Salvador.

O consórcio disse ter vencido a licitação com o menor preço e que tudo foi executado de acordo com o projeto e “atestado pelo cliente”. Afirmou ainda que “que todos os questionamentos serão esclarecidos aos órgãos fiscalizadores”. A CTS disse que os apontamentos do TCU se referem a “falhas antigas”. “Em algum momento isso vai se resolver”, disse Carlos Martins, presidente da companhia. A CBTU não se manifestou.

 Fonte: Tribuna da Bahia