Suely Temporal, ao centro, se reúne à turma de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Bahia (UFBA). Foto: Morgana Araújo.
Na manhã desta quarta-feira (16), a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) recebeu uma turma de estudantes de Jornalismo da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA para uma aula aberta, ministrada pela presidente da associação, Suely Temporal, com o tema “Mulheres no Jornalismo”. A conversa aconteceu durante uma visitação à sede da ABI, no Edifício Ranulfo Alves. A atividade é parte da disciplina “História do Jornalismo”, ministrada pelo professor Fernando Conceição.
Os estudantes levaram para casa alguns exemplares da revista “Memória da Imprensa” e do guia “Protocolo Antifeminicídio”, produções da ABI. Foto: Morgana Araújo.
A realidade da violência de gênero no Jornalismo
No auditório, a presidente propôs uma conversa sobre a história das mulheres no mercado jornalístico, ressaltando a luta por voz, espaço e poder de decisão numa comparação ao gênero masculino.
“Nós estamos conversando sobre protagonismo, não sobre existência, porque as mulheres sempre existiram no Jornalismo. Elas, durante muito tempo, ou foram invisibilizadas ou não conseguiram alçar cargos de liderança. Não por falta de merecimento, mas apenas por serem mulheres”, afirma Suely.
Em 2025, a ABRAJI publicou o relatório “Ataques gerais e violência de gênero contra jornalistas no Brasil” que registrava 204 alertas de ataques contra jornalistas e meios de comunicação no Brasil. A violência de gênero esteve presente em 15,2% dos alertas. Mulheres representaram 30,2% das vítimas com gênero identificado. Entre os alertas com violência explícita de gênero, 77,4% envolveram comentários machistas, misóginos ou LGBTfóbicos, enquanto 16,1% corresponderam a atos discriminatórios diretos.
Fonte: Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 2025.
Ao abordar os desafios de cada geração dentro da profissão, Suely mencionou a atual transformação da prática jornalística por causa da inteligência artificial, das redes sociais, das novas formas de desinformação, dos influenciadores digitais como novos formadores de opinião e das formas emergentes de produzir e distribuir informação. “Mas há coisas que continuam essencialmente humanas: curiosidade, capacidade de perguntar, escuta, ética, coragem, sensibilidade e compromisso com a verdade factual”, defendeu.
A programação propôs orientar e trocar experiências entre profissionais da comunicação e estudantes recém chegados ao ambiente acadêmico. Também busca aproximar a ABI às universidades e incentivar conversas relevantes para o futuro do Jornalismo e dos profissionais em formação.
Sobre a visitação
A visita teve início no Museu de Imprensa, localizado no térreo do Edifício Ranulfo Oliveira, no Centro Histórico de Salvador. Depois, os convidados visitaram a Sala Afonso Maciel, onde a presidente discorreu sobre o propósito da associação. Durante o momento, o historiador Pablo Sousa, assistente do Museu de Imprensa, contou a história da ABI e em seguida apresentou a Biblioteca de Comunicação Jorge Calmon. Ao final, os estudantes se reuniram no auditório, com Suely Temporal, para a aula aberta.
Jornalismo, empreendedorismo e cidadania estiveram no centro das discussões do 3º Encontro Baiano de Comunicadores, realizado na noite desta terça-feira (15), na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em Salvador. Promovido pelo Sebrae, com apoio da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), o encontro reuniu os jornalistas Jéssica Senra, Jefferson Beltrão e Victor Pinto para discutir as transformações da profissão, os desafios de empreender na comunicação e a responsabilidade do jornalismo diante de uma sociedade cada vez mais atravessada pelas novas tecnologias.
A programação, que teve mediação da presidente da ABI, Suely Temporal, também marcou a cerimônia de entrega do 13º Prêmio Sebrae de Jornalismo (PSJ). Nesta edição, a premiação registrou recorde de participação na Bahia, com 181 trabalhos inscritos, e distribuiu R$ 70 mil entre as categorias Texto, Áudio, Vídeo, Fotojornalismo e Jornalismo Universitário.
Na abertura do painel, Suely Temporal destacou que as mudanças pelas quais passou o jornalismo nas últimas décadas também transformaram a relação dos profissionais com o mercado. Para ela, o jornalista passou a ocupar, cada vez mais, o lugar de empreendedor, especialmente diante da multiplicação de plataformas e formatos de comunicação.
“Hoje também falamos do jornalista como empreendedor. (…) Surgiram podcasts, sites, blogs, perfis de influenciadores. E, se antes a marca do jornalista estava diretamente relacionada à reputação do veículo ao qual ele estava ligado, hoje o jornalista tem que construir a sua própria marca pessoal”, afirmou.
A presidente da ABI, no entanto, ressaltou que a busca por novos modelos de atuação não pode significar o afastamento dos princípios que fundamentam a profissão. Para Suely, ética, responsabilidade na produção da informação e defesa do direito da população de estar bem informada permanecem como referências essenciais.
É nesse ponto que, segundo ela, os três conceitos que dão nome ao encontro se conectam: o jornalismo como prática, o empreendedorismo como uma possibilidade profissional cada vez mais presente e a cidadania como finalidade do trabalho jornalístico. “O jornalismo é base e pilar da democracia”, destacou ela, que, em breve, lançará um livro sobre como transformar o jornalismo em negócio sustentável.
Nova lógica
A transformação provocada pelas redes sociais e pelas novas tecnologias foi um dos principais pontos abordados por Jéssica Senra. A jornalista falou sobre a experiência de profissionais que deixaram os meios tradicionais de comunicação para construir seus próprios espaços de atuação.
Segundo ela, as redes sociais ampliaram as possibilidades para jornalistas que desejam continuar produzindo conteúdo de forma independente. Ao mesmo tempo, a abundância de informação tornou ainda mais relevante a capacidade profissional de interpretar os fatos.
“Estamos mergulhados e bombardeados por muita e muita informação. E, por isso, o jornalista hoje se torna mais relevante do que nunca”, afirmou.
Jéssica também chamou atenção para um dos grandes desafios colocados pela expansão da inteligência artificial: a necessidade de compreender quais competências continuam essencialmente humanas. Entre elas, citou o pensamento crítico, a empatia e a responsabilidade pelo conteúdo produzido.
A jornalista lembrou ainda que a responsabilidade sobre uma informação continua sendo de quem a publica, independentemente da ferramenta utilizada para produzi-la. “Se alguém lhe processar criminalmente por calúnia, injúria e difamação, não é a IA que vai responder pelo texto, é você”, observou.
Outro questionamento levantado por Jéssica foi sobre o espaço que resta ao jornalista em um cenário no qual profissionais de praticamente todas as áreas passaram a produzir conteúdo. Psicólogos, chefs de cozinha, empresários e especialistas de diferentes setores utilizam as redes para divulgar seus conhecimentos, construir audiência e oferecer serviços.
A provocação colocou em debate justamente aquilo que diferencia o jornalismo em meio à avalanche de conteúdo: a capacidade de apurar, contextualizar, interpretar e responder eticamente pela informação.
Para Jefferson Beltrão, o próprio exercício da comunicação já contém uma dimensão empreendedora. O jornalista, segundo ele, identifica necessidades, busca informações, constrói narrativas e mobiliza pessoas por meio da comunicação.
“O comunicador é um empreendedor também, independentemente de ter ou não ter uma empresa na área da comunicação”, afirmou.
O jornalista destacou a importância da comunicação como instrumento capaz de colocar ideias em movimento e transformar a sociedade. Ao recorrer a referências da retórica clássica, mencionou os conceitos de ethos, pathos e logos, associados à credibilidade, à emoção e à lógica na construção de uma comunicação capaz de estabelecer conexão e confiança.
A discussão também passou pela ética profissional. Para Jefferson, a capacidade de persuadir e influenciar precisa estar acompanhada de responsabilidade. “A comunicação é uma ferramenta que pode ser usada para o bem e para o mal”, observou.
Ao falar sobre sua própria trajetória, o jornalista contou que chegou a cursar Odontologia antes de seguir definitivamente para a comunicação. A experiência profissional no rádio e na televisão, segundo ele, trouxe uma das principais recompensas da carreira: a possibilidade de contribuir para a vida das pessoas.
Foi nesse contexto que deixou uma reflexão sobre um dos principais ativos do jornalista: “A credibilidade ainda é o nosso maior patrimônio. É algo que a gente constrói ao longo de uma vida. E podemos perder da noite para o dia”.
Empreender exige adaptação
Victor Pinto levou ao debate a relação entre a atuação em veículos de comunicação e a possibilidade de construir um negócio próprio. Para ele, as duas experiências podem coexistir, dependendo dos objetivos de cada profissional.
O jornalista defendeu que construir uma identidade que ultrapasse o nome do veículo no qual se trabalha é parte importante da trajetória profissional. “Alguns querem ir mais além e querem empreender, ser dono do seu próprio negócio. Só que é uma tarefa muito difícil”, afirmou.
A própria trajetória de Victor é marcada por experiências empreendedoras. Ele contou que, aos 12 anos, criou um jornal em sua cidade, Conceição do Coité (BA), e acompanhou desde cedo os desafios de produzir uma publicação, buscar anunciantes, gerar receita e manter a operação.
Hoje, segundo ele, a tecnologia reduziu significativamente os custos de entrada para quem deseja produzir conteúdo. Se antes uma cobertura exigia câmeras, gravadores e outros equipamentos, atualmente um celular pode concentrar boa parte dessas funções.
Mas a facilidade tecnológica não elimina os desafios do negócio. Para Victor, o jornalista que pretende empreender precisa compreender a importância da construção da própria marca e desenvolver competências que vão além da produção da notícia.
“Precisamos ter um foco para construir a nossa independência. Procurar as marcas, se apropriar, captar clientes. São muitos os caminhos. É saber o seu foco, estudar e trabalhar nisso”, afirmou.
Sustentabilidade e identidade profissional
A sustentabilidade do jornalismo como atividade profissional também figurou no debate. Os convidados destacaram que o modelo que funcionou no passado nem sempre responde às necessidades do presente, exigindo dos profissionais capacidade de adaptação.
Jéssica Senra defendeu a abertura para novos caminhos e formatos. “O que deu certo lá atrás, muitas vezes, não funciona. Precisamos estar abertos a novos caminhos”, afirmou.
Jefferson Beltrão reforçou que a inovação profissional não pode prescindir da ética. Já Victor Pinto destacou a necessidade de combinar conhecimento, planejamento, relacionamento e clareza de propósito para construir uma trajetória independente.
Os convidados também chamaram atenção para a valorização dos profissionais baianos e defenderam que empresas e instituições ampliem a contratação de talentos locais. A discussão abordou a percepção de desvalorização da mão de obra do estado e a necessidade de superar o que foi chamado por Jéssica de “síndrome de vira-lata”.
Para quem está começando
Ao final do painel, os três jornalistas deixaram recomendações para os profissionais que estão entrando no mercado.
Jéssica Senra ressaltou a necessidade de manter a paixão pelo jornalismo, ampliar o repertório e continuar estudando. Para ela, apesar das dificuldades da profissão, o jornalismo permanece como uma ferramenta capaz de transformar a vida das pessoas.
Jefferson Beltrão falou sobre propósito e intuição. Segundo ele, cada profissional precisa identificar aquilo que deseja construir e desenvolver uma disposição mental favorável aos próprios objetivos. Também recomendou assumir riscos de forma consciente, buscando informações e entendendo o terreno antes de tomar decisões.
Victor Pinto enfatizou a importância do conhecimento e das relações interpessoais. Para ele, além de estudar, o jovem jornalista precisa saber se relacionar e construir uma rede de contatos. “O mercado é pequeno e todo mundo se conversa, todo mundo se fala”, afirmou.
As diferentes perspectivas apresentadas durante o encontro convergiram para uma questão central: em um ambiente marcado pela transformação tecnológica e pela multiplicação de produtores de conteúdo, o jornalista precisa combinar conhecimento, capacidade de adaptação, identidade profissional e responsabilidade com a informação.
Prêmio Sebrae
Após o debate, a noite foi dedicada ao reconhecimento dos trabalhos jornalísticos inscritos na etapa Bahia da 13ª edição do Prêmio Sebrae de Jornalismo. A premiação valoriza reportagens que mostram, a partir da perspectiva dos pequenos negócios, como o empreendedorismo contribui para transformar vidas e movimentar a economia.
Na categoria Texto, o primeiro lugar ficou com Bianca Carneiro, do Portal A Tarde, com “Cerveja, cacau e arte: como indígenas baianos transformam a floresta em renda coletiva”. Quézia Silva, do Portal Salvador FM, ficou em segundo, com “Empreendedores do Bairro da Paz transformam talento em oportunidade e renda”, e Maria Raquel Brito, do Jornal Correio, conquistou o terceiro lugar com “Mulheres egressas do sistema prisional encontram recomeço no empreendedorismo”.
Em Áudio, o primeiro lugar foi de Paloma Morais, da BandNews FM Salvador, com “Licuri: o tesouro do Sertão – Sabores e Texturas”. Luanne Ribeiro, da Rádio Antena 1 Salvador, ficou em segundo com “Da Seca à Solução: O Sol que Reflete Cuidado e Futuro”, enquanto Verena Veloso, da BandNews FM Salvador, conquistou o terceiro lugar com “Mãos que cultivam: a força dos agricultores familiares da Bahia”.
No Fotojornalismo, Uendel Galter, do Jornal Massa!, venceu com “Ancestralidade nas mãos e na cabeça”. Marina Silva, do Jornal Correio, ficou em segundo com a fotografia da matéria “Como um pequeno negócio transformou um espaço esquecido em atração cultural no Centro Histórico de Salvador”, e Sora Brito Maia, também do Correio, ficou em terceiro com “Ouro em Barra”.
Na categoria Vídeo, o primeiro lugar foi conquistado por Lucas da Hora, da TV Bahia, com “Afroempreendedorismo”. Filipe Correia, da TV Globo, ficou em segundo com “Clima de alerta – água”, e Lícia Fontenele, da TV Record Bahia, conquistou o terceiro lugar com “Da Dor à Potência: A Força Empreendedora das Mulheres”.
Encerrando a premiação, na categoria Jornalismo Universitário, Eloisa do Carmo Oliveira, da UNEB – Campus Seabra, conquistou o primeiro lugar com “Mãos que moldam o presente e o futuro: o empreendedorismo feminino floresce em olarias artesanais da Bahia”. Tais Maria Martins, da UNIFTC Salvador, ficou em segundo com “Meliponário Vale das Rainhas”, e Lucas Soares, da UFBA, em terceiro, com “Mãos de Midas”.
Da esquerda para a direita: Yara Vasku, Suely Temporal, Carolina de Sá e Estela Santana. Foto: Morgana Araújo.
Na última sexta-feira (11), a presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), Suely Temporal, e a diretora de cultura da associação, Yara Vasku, se reuniram com representantes da associação artístico-cultural Pivô Salvador, a diretora executiva, Carolina de Sá, e a gerente de projetos da instituição, Estela Santana, numa visitação entre as sedes das instituições.
O encontro é parte do plano de aproximação da ABI às instituições que se conectam ao propósito da associação e se localizam próximas à sede: o Edifício Ranulfo Oliveira, na esquina da Rua Guedes de Brito com a Rua José Gonçalves.
A associação conheceu as atividades da Pivô Salvador e apresentou alguns dos programas institucionais a fim de estruturar, colaborativamente, os pontos de sinergia e pensar projetos futuros. Um dos resultados foi o convite para a próxima visitação da requalificação do Complexo da Ladeira da Misericórdia, projetado por Lina Bo Bardi na década de 1980, uma ação da Prefeitura de Salvador (PMS) em parceria com o Instituto Bardi e a associação cultural Pivô.
“Esse primeiro contato abre uma perspectiva muito positiva de diálogo e aproximação entre duas instituições que valorizam a cultura, a memória e a circulação de ideias. Nos permitiu conhecer melhor nossas atuações e identificar possibilidades de colaboração, conectando comunicação, arte e cultura em iniciativas de interesse da sociedade”, declarou a presidente da ABI sobre a parceria.
Visitando a Pivô Salvador
A visitação teve início na sede da Pivô, o casarão histórico chamado de Boulevard Suiço, ou a casa do Boulevard, situada em Nazaré – Salvador, um marco histórico da cidade. Construída em 1934, ela foi o projeto do pintor baiano Presciliano Silva e do arquiteto Lycério Schreiner, inspirada na arquitetura dos anos da Belle Époque. O artista viveu 31 anos na casa, onde também residia seu atelier, com sua companheira, a pianista e cantora lírica Alice Moniz e a filha do casal, a atriz Maria Moniz, que ainda vive no local.
Ao longo das décadas de 30 a 50, a casa se tornou um ponto de referência na cena cultural da época, ambiente propício para o intercâmbio de ideias e o florescimento da arte. Nos anos 60, ela ganhou destaque ao receber artistas como Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, entre outros. A história dela se estende até os anos 80, quando o espaço se transformou em Atelier Bar, um espaço underground com apresentações de Blues e Jazz. Nos anos 2000, o espaço abrigou uma exposição imersiva e foi cenário de filme.
Atualmente, a casa do Boulevard continua a desempenhar um papel relevante na cena cultural de Salvador por meio de exposições, filmagens e eventos.
Pivô na ABI
Posteriormente, na sede da ABI, a Pivô foi apresentada à equipe da instituição e percorreu os principais espaços da sede. A visita começou pelo hall de entrada, onde está exposto o quadro de Ruy Barbosa feito por Presciliano Silva, bisavô da diretora da Pivô, Carolina. Depois, a visita seguiu para a Biblioteca Jorge Calmon, onde o museólogo Pablo Sousa apresentou parte do acervo da ABI e explicou o trabalho de preservação desenvolvido pela instituição.
O roteiro seguiu para a Sala de Reuniões Afonso Maciel, onde são realizadas as reuniões mensais da diretoria da entidade. Em seguida, visitou a Sala de Cinema Roberto Pires e o Auditório Samuel Celestino, espaço que abriga o acervo de Ruy Barbosa, composto por quadros, documentos e arquivos de relevância histórica.
Durante a visita, todas percorreram as instalações do edifício onde funcionam órgãos da Prefeitura de Salvador, entre eles a Secretaria de Governo (Segov), a Secretaria Municipal de Comunicação (Secom) e a Prefeitura-Bairro Brotas/Centro. A presidente mostrou ainda o espaço compreendido entre o 6º e o 7º andares, onde funcionou o plenário da Assembleia Legislativa da Bahia antes de ser transferida para o atual edifício no Centro Administrativo da Bahia, e o painel de Mário Cravo Jr. que fica na parte externa do prédio.
Ao final da visita, a programação incluiu o Museu de Imprensa da ABI. No local, foram apresentados o acervo documental, responsável por preservar parte significativa da memória do jornalismo baiano, além das iniciativas que o laboratório de restauro propõe.
Casa do Boulevard. Divulgação / Pivô Salvador.Carolina de Sá ao lado do quadro do artista Presciliano Silva, seu bisavô. Foto: Morgana Araújo.Entrega de exemplares impressos. Foto: Morgana Araújo.Passagem no Museu de Imprensa da ABI. Foto: Morgana Araújo.Visita ao 7° andar do Edifício Ranulfo Oliveira. Foto: Morgana Araújo.
A memória de um governo também se escreve pelas páginas dos jornais, pelas ondas do rádio, pelas fotografias e pelas estratégias que aproximam a administração pública da sociedade. Foi nesse território entre história, jornalismo e política que a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) realizou, nesta quarta-feira (9), mais uma edição do Temas Diversos, ciclo promovido mensalmente após a reunião ordinária de Diretoria da entidade.
Em homenagem ao centenário de nascimento do professor e ex-governador da Bahia, Roberto Santos, a programação trouxe a roda de conversa “Comunicação no Governo Roberto Santos”, reunindo profissionais que acompanharam de perto a comunicação da gestão entre 1975 e 1979.
Participaram os jornalistas Helington Rangel, ex-secretário de Comunicação do governo Roberto Santos; José Estevez, subsecretário de Comunicação na gestão de Sérgio Gomes; Maria Alcina Pipolo, assessora de comunicação da primeira-dama Maria Amélia; e a professora Cristiana Santos, filha do ex-governador. A mediação foi do jornalista Luis Guilherme Pontes Tavares, vice-presidente da Assembleia Geral da ABI, que atuou como repórter da Secretaria de Comunicação durante o governo. Entre os convidados, estava Girlene Ferreira, representando o Memorial dos Governadores da Fundação Pedro Calmon.
A conversa recuperou episódios, bastidores e desafios de uma época em que a comunicação pública ainda era essencialmente analógica, sem computadores, celulares ou redes sociais. Também revelou um paradoxo que atravessou a gestão: um governo de forte caráter técnico e grande volume de realizações, comandado por um homem pouco afeito à publicidade pessoal, precisava encontrar formas de fazer suas ações chegarem à imprensa e, consequentemente, à sociedade.
Segundo os relatos apresentados durante o encontro, a própria criação da Secretaria de Comunicação Social do Estado está ligada à gestão de Roberto Santos. A estrutura nasceu em um período no qual a relação entre governo, universidade e imprensa começava a ganhar novos contornos.
O perfil do governador foi determinante para essa configuração. Formado na medicina, o professor e pesquisador Roberto Santos chegou ao governo sem uma trajetória política tradicional. Como destacou o debate, sua gestão teria sido composta majoritariamente por técnicos oriundos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da qual foi reitor na gestão 1967–1971. A proximidade entre a universidade e o governo foi apontada como uma das marcas daquele período.
Essa característica também aparecia na forma como o governador se comunicava. Em vez do discurso político tradicional, recorria ao detalhamento. Em praças públicas, explicava as obras, seus objetivos e as razões técnicas que orientavam cada iniciativa.
O desafio de transformar gestão em notícia
Para os jornalistas que trabalharam na Secretaria de Comunicação, entretanto, a competência técnica do governo não significava necessariamente facilidade para produzir notícia.
José Estevez recordou que a equipe muitas vezes precisava buscar as informações por conta própria. “A imprensa tinha que ir garimpar a matéria”, afirmou. Segundo ele, os integrantes da equipe de governo conheciam profundamente suas áreas de atuação, mas nem sempre identificavam aquilo que poderia despertar o interesse jornalístico.
O resultado era uma assessoria obrigada a construir diariamente as pontes entre a realização administrativa e a narrativa jornalística.
“Um release aqui, outro acolá, você não tinha como avaliar esse todo do governo”, observou Estevez, ao lembrar o volume de obras e ações da administração. Em sua avaliação, também faltava inicialmente uma estrutura de publicidade que pudesse reforçar a comunicação institucional e ampliar o alcance das realizações.
A resistência de Roberto Santos à publicidade excessiva fazia parte de sua personalidade. O ex-governador, segundo os relatos, estava mais interessado na execução das políticas públicas do que na construção de uma imagem pessoal.
Um episódio narrado por Esteves sintetizou essa postura. Ao analisar uma proposta de campanha para divulgar uma escola com dezenas de salas de aula, Roberto Santos teria questionado o investimento publicitário: “Estevez, por isso aí, eu faço mais duas salas de aula.”
A frase traduzia uma lógica que atravessava sua administração: diante da possibilidade de escolher entre comunicar uma realização e ampliar a própria realização, o governador tendia a optar pela segunda.
Quando a comunicação ganhou força
Essa postura não impediu mudanças. A necessidade de ampliar a comunicação do governo tornou-se mais evidente à medida que as críticas à falta de divulgação cresceram.
Estevez recordou que uma declaração de um deputado, que classificou o governo como “imobilista”, teria provocado uma das raras demonstrações de incômodo público de Roberto Santos. A crítica contrastava com o grande volume de obras realizadas durante a gestão.
A partir daquele momento, segundo o relato, houve uma mudança de orientação, com maior investimento em publicidade e comunicação. Sérgio Gomes passou a ocupar papel importante nesse processo, trazendo uma visão mais estratégica sobre a utilização da propaganda para dar visibilidade às ações do governo.
Ainda assim, a personalidade do governador permanecia presente. Roberto Santos acompanhava de perto as peças, discutia campanhas e examinava os investimentos. A comunicação precisava dialogar com um administrador que conhecia os detalhes de cada projeto e que mantinha rígido controle sobre os recursos públicos.
A comunicação para além do Palácio
A experiência de Maria Alcina Pipolo ampliou a discussão para o trabalho desenvolvido por Maria Amélia Santos à frente das Voluntárias Sociais.
Com apenas 19 anos e ainda cursando jornalismo, Maria Alcina recebeu o convite para atuar como assessora de imprensa da primeira-dama. A experiência, segundo seu relato, representou também uma mudança na maneira como as ações sociais do governo eram pensadas e comunicadas.
Maria Amélia teria compreendido que seu papel poderia ultrapassar o assistencialismo tradicional. “É melhor ensinar a pescar do que dar o peixe”, repetia, segundo a jornalista.
A partir dessa perspectiva, foram estabelecidas parcerias com clubes de mães, centros comunitários e instituições filantrópicas, além da oferta de cursos profissionalizantes. Maria Alcina também recordou campanhas de registro civil que permitiram a milhares de pessoas obter documentação pela primeira vez. Em uma delas, entrevistou um homem com mais de 90 anos que até então não possuía qualquer documento oficial.
A experiência das Voluntárias Sociais também revelou uma percepção pioneira sobre comunicação institucional. “Dona Maria Amélia inseriu pela primeira vez uma assessoria de imprensa no quadro das voluntárias sociais”, destacou Maria Alcina, que relacionou essa iniciativa à criação da primeira Secretaria de Comunicação Social do governo estadual.
Uma memória de família
Para Cristiana Santos, a roda de conversa representou a possibilidade de reunir memória pessoal e memória pública. Filha de Roberto Santos, ela tinha nove anos quando o pai assumiu o governo da Bahia e acompanhou parte das viagens ao interior, além de ter vivido dentro de casa as conversas e decisões que atravessavam a vida política do governador.
“Ele era um professor e pesquisador que entrou para a política por acaso, o projeto de vida dele não era a política, era a pesquisa, era o estudo”, afirmou.
Para a professora, compreender o governador exige retornar ao professor e ao cientista. A formação acadêmica, a experiência internacional e o trabalho desenvolvido na medicina e na universidade ajudaram a moldar um administrador que pensava os problemas de maneira sistemática. “Cada situação, cada problema com método. Com método”, resumiu.
Essa característica, segundo ela, pode ser percebida em diferentes áreas da gestão. Educação, saúde, ciência e tecnologia, infraestrutura e desenvolvimento econômico apareciam articulados a uma lógica de planejamento.
Cristiana citou como exemplos a expansão da rede educacional, a organização regional da saúde, a criação de hospitais, o Hospital Roberto Santos, o Museu de Ciência e Tecnologia, a Rádio Educadora, os Centros Sociais Urbanos, o Parque de Pituaçu, o Estádio de Pituaçu, o Centro de Convenções e iniciativas relacionadas ao desenvolvimento industrial da Bahia.
Na avaliação da professora, havia também uma diferença entre fazer e comunicar. Roberto Santos estava concentrado na realização das políticas públicas, enquanto Maria Amélia possuía uma percepção mais sensível sobre a necessidade de dar visibilidade ao trabalho realizado.
“Às vezes não enxergava que, além de fazer, ele precisava dar visibilidade ao que fez, que ele precisava valorizar, assim, a publicidade”, afirmou Cristiana, que durante a participação recebeu de Jaciara Santos, 1ª secretária da ABI, uma cópia da matéria publicada pela jornalista no Jornal da Bahia, no encerramento do governo de seu pai, em 1979.
Memória
Ao falar sobre o período posterior ao governo, Cristiana trouxe à roda uma dimensão menos conhecida dessa história. Segundo ela, houve um processo de apagamento da memória da administração Roberto Santos, com retirada de placas e mudanças de nomes de equipamentos, além de dificuldades enfrentadas por pessoas que haviam trabalhado na gestão.
“Então, houve sim um período de perseguição a quem trabalhou, que é bom lembrar, e de apagamento da história. E essa é uma das coisas que a gente tá procurando fazer com o centenário, com o resgate”, afirmou.
É justamente contra esse esquecimento que a família vem trabalhando no centenário. Cristiana contou que tem reunido fotografias, documentos e memórias para construir um perfil sobre o ex-governador e ampliar o acesso público à sua trajetória.
A iniciativa, para ela, não pretende apenas preservar uma memória familiar. Busca também recolocar em debate uma determinada compreensão da política.
“Custa a gente lembrar as pessoas que o governo pode ser planejado?”, questionou. E completou defendendo que a política pode manter compromisso com educação, saúde, redução das desigualdades e valorização da ciência e da tecnologia.
Ao final, Cristiana aproximou a homenagem ao pai de uma reflexão sobre o presente. Para ela, a degradação da política e o avanço do que chamou de “politicagem” contribuíram para a desesperança e para o afastamento das novas gerações.
“Talvez seja o momento da gente relembrar”, afirmou, defendendo a recuperação de trajetórias em que o interesse público e o compromisso republicano tiveram papel central.
A presidente da ABI, Suely Temporal agradeceu a aula dada pelos participantes e presença dos convidados da roda de conversa. Ela destacou a importância da comunicação pública e da preservação da memória da imprensa. “A ABI abriu espaço para que uma experiência de quase cinco décadas pudesse ser revisitada à luz dos desafios atuais da comunicação pública. E, em uma época de tecnologias instantâneas, a lembrança feita durante o encontro por Cristiana ganhou uma dimensão particular. Aqueles jornalistas trabalharam sem computadores, celulares ou redes sociais. Dependiam do telefone, do papel, da presença física e da capacidade de transformar acontecimentos em notícia”, enfatizou.