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Reinvenção e tradição nas comemorações do Dois de Julho

Ao longo das ruas, ladeiras e praças, os baianos resgatam anualmente a história de luta que culminou na Independência da Bahia, comemorada desde 1824, um ano após a conquista da liberdade do julgo de Portugal Colônia. Além de ser feriado estadual e efeméride nacional, o 2 de Julho passou a ser considerado Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 26 de Junho de 2006, por motivos sócio-antropológicos, históricos e simbólicos. No feriado da Independência, as tradicionais fanfarras, o desfile de colégios estaduais, de militares, dos movimentos sociais, de políticos dos mais diversos partidos, dos grupos de samba e batucadas compõem o heterodoxo cenário do cortejo, que cada vez mais incorpora novos elementos e se reinventa.

Ala das tradicionais fanfarras/Foto: Joseanne Guedes/ABI
Ala das tradicionais fanfarras/Foto: Joseanne Guedes/ABI

Já há algum tempo, ao caráter histórico-cívico da festa juntam-se manifestações de grupos religiosos, além de ter espaço para as mais diversas reivindicações das chamadas minorias sociais. No Dois de julho de 2014 não foi diferente. Quem foi ver os carros do Caboclo e da Cabocla passarem, assistiu a um cortejo de fé e celebração democrática de um espaço para a presença de todas as legendas políticas, manifestações religiosas e de gênero, além de trabalhadores de diversos segmentos profissionais, que aproveitam a grande visibilidade do ato cívico para levar à sociedade suas reivindicações.

Balões, faixas e pirulitos exibem antigas e necessárias reivindicações da população, como educação, saúde e moradia. Partidos políticos e coligações desfilaram em uma ala, o que não evitou confrontos entre militantes. Além dos candidatos ao governo do estado, postulantes ao Palácio do Planalto marcaram presença este ano na festa baiana. E se receberam aplausos, também não escaparam das vaias de uma população descontente e indignada com os desvios da representação política, sobretudo a corrupção, que frequenta diariamente as páginas dos jornais.

Quem coordena a programação do 2 de julho, um dos eventos mais esperados do calendário baiano, é a Fundação Gregório de Matos, organizadora da festa que se estende por dias. Logo no dia 1º, o Fogo Simbólico chega a Pirajá, no dia seguinte, há a Alvorada na Lapinha, a saída do Cortejo pelas ruas do Centro Histórico em direção à Praça Tomé de Souza, o concurso que elege a fachada mais bonita entre as casas que se enfeitam no trajeto, a retomada do Cortejo durante a tarde, o hasteamento de bandeiras no Campo Grande e acendimento da Pira. A comemoração só termina no dia 5, com o desfile que marca a volta do Caboclo e da Cabocla ao Pavilhão da Lapinha.

Leia também: Festa do Bonfim recebe título de Patrimônio Imaterial Nacional

Contudo, é no miolo destas comemorações que se nota a mescla do caráter histórico e oficial com as manifestações e protestos culturais populares. A atenção dos baianos e dos turistas que desembarcam em Salvador, em especial em um ano que coincide com o evento Copa do Mundo FIFA, é o caráter de protesto da festa, que não é uma novidade.

O antropólogo Roberto Albergaria lembra que, no contexto da independência, a pauta de reivindicações sociais foi desrespeitada pelo Império. “A mitologia baiana construiu e magnificou o 2 de Julho, transformando-o em um mito de origem. Ele nasceu com os protestos contra a quebra de acordos no pós-guerra, sendo que as imagens dos caboclos representavam os combatentes anônimos do povo que tiveram papel importante na libertação. Era uma festa do Recôncavo, uma festa popular, mas o crescimento das cidades se encarregou de dividir em tribos. Até que virou uma prévia de muitas coisas, inclusive das eleições e das paradas gays, perdendo o sentido cívico”.

E tudo caminha nesse sentido. O 2 de Julho, em ano eleitoral, indica quem tem ou não prestigio eleitoral e, de certa forma, é um momento de aferição para futuros vencedores e vencidos nas próximas urnas. Para os políticos, um teste no trânsito do corpo a corpo sob apupos ou vaias, fora das blindagens da TV.

Personagens dos caboclos são reinterpretados e assimilados como entidades a serem cultuadas pelos adeptos de religiões de matiz africana - Foto: Joseanne Guedes/ABI
Ao longo dos anos, as personagens dos caboclos foram reinterpretadas e assimiladas como entidades a serem cultuadas pelos adeptos de religiões de matiz africana – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Mas, Albergaria destaca pelo menos dois elementos incorporados à festa que, para ele, mostram que a cultura é reciclada e está em constante transformação. “Dois fatores fundamentais estão sendo assimilados pelo cortejo. O primeiro é a ressignificação das personagens dos caboclos, que foram reinterpretados pelo nosso ‘umbandomblé’ difuso, a ponto de religiosos levarem oferendas e bilhetes para depositarem nos carros. Então, o caboclo, antes símbolo da baianidade, deixa de ser lembrado pela luta e passa a ser visto como entidade a ser cultuada. O outro ponto é a intensa e polêmica participação de gays nas fanfarras colegiais, que se transformaram em um espaço de expressão e ponto de encontro para gays, lésbicas e simpatizantes. Na última década, a nova tradição das balizas acrobatas se incorporou ao balaio-de-gatos que é o cortejo 2 de julho”.

Na linha crítica de certas interpretações do 2 de Julho, o  historiador baiano Luís Henrique Dias Tavares, autor do livro “Independência do Brasil na Bahia”, assinala esta data à presença de heróis na construção do imaginário popular baiano. Em entrevista à jornalista Mariluce Moura, Dias Tavares lembra que a Bahia saiu muito pobre da guerra e construiu o 2 de julho de 1823 como uma data da independência, que era da Bahia, mas que era também do Brasil. A obra de Tavares destaca equívocos como as homenagens ao General Labatut e a imagem de uma Maria Quitéria com um saiote escocês, com uma linda farda e com arma na mão. “Ela esteve realmente em vários instantes de luta, mas esfarrapada, com o que restava em cima do corpo, porque foi parte desse exército brasileiro”.

A cenografia do cortejo

Aspecto importante no cortejo, a ornamentação de fachadas é tema do concurso cultural “Decoração da Fachada – 2 de Julho” e integra a programação da Secretaria de Cultura (Secult) para as comemorações dos 191 anos da Independência da Bahia. Este é o segundo ano consecutivo que o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), com os apoios da Fundação Gregório de Mattos e prefeitura de Salvador, organiza a competição, depois de um hiato entre 2010 e 2012.

Temática cívica, preservação do patrimônio, criatividade, originalidade, preocupação com meio ambiente são os elementos avaliados pela comissão julgadora, formada por artistas plásticos, arquitetos, jornalistas e técnicos do Ipac. Esta é uma forma de estimular e convocar a participação dos moradores no embelezamento das fachadas de suas casas e a marcarem presença nas janelas e sacadas.

D. Maria de São Pedro e sua filha Nea Santttana exibem orgulhosas sua fachada decorada com as cores da Bahia e do Brasil - Foto: Joseanne Guedes/ABI
D. Maria de São Pedro e sua filha Nea Santttana exibem orgulhosas sua fachada decorada com as cores da Bahia e do Brasil – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Na Rua Direita do Santo Antônio, há 38 anos mora D. Maria de São Pedro, 74 anos, que faz aniversário em meio aos festejos da independência. Ela é uma das moradoras que capricham nas fachadas das casas. Há 20 anos, com o auxílio da família, ela ajuda a contar a história do 2 de Julho, através de cenários que envolvem personagens históricos e elementos da fauna e da flora brasileira. Na frente da casa de número 34, encontramos Maria Quitéria e Castro Alves, representados pelos netos da carismática D. Maria. Quem também já fez parte desse elenco no papel de Maria Quitéria foi sua filha, a estilista Nea Santtana. “É uma data muito importante para nosso estado. Todo o artesanato é feito por nós com muito amor. No ano passado, vencemos o concurso de fachadas”.

A professora D. Noêmia Cerqueira ornamenta sua casa há quase cinco décadas - Foto: Joseanne Guedes/ABI
A professora D. Noêmia Cerqueira ornamenta sua casa há quase cinco décadas – Foto: Joseanne Guedes/ABI

Rua do Carmo, número 7. Esse é o endereço da professora aposentada Noêmia Cerqueira, 64 anos, que desde os 18 anos também ornamenta a fachada de sua casa em comemoração ao 2 de Julho. “Comecei a decorar na época em que eu ensinava nos colégios públicos de Salvador e nunca mais parei. Eu queria mostrar a importância da data, chamar a atenção para a nossa história e reforçar o sentido patriota da festa”, conta a educadora.

Durante todo o percurso, famílias acenavam das janelas que se tornaram camarotes com vista privilegiada para o espetáculo de cores, em um dia repleto de manifestações artísticas, culturais e religiosas. Quem faz de tudo para não perder o desfile é a advogada baiana Magnólia Regis, que mora na cidade do Rio de Janeiro há mais de 30 anos, “Estudei no Colégio Severino Vieira, em Nazaré, e defendo o ensino dos nossos hinos nas escolas brasileiras. Temos que manter essa belíssima tradição das fanfarras e não deixar a história de perder. O apagamento do nosso passado e a ignorância do povo é conveniente para quem está no poder”.

Com isso concorda a diretora Eliete Silva, responsável pela Fanfarra do Colégio Estadual Duque de Caxias (Fanduc), localizado no bairro da Liberdade. “Nosso grupo é tradicional, histórico. Passamos o ano nos preparando para participar do cortejo, que é uma forma de valorizar nossa história. Através da música, da arte, resgatamos jovens para o convívio escolar”, ressalta.

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MuNEAN promove mesa redonda sobre comunicação e cultura no próximo sábado (17)

Reprodução/MuNEAN
Reprodução/MuNEAN

O Museu Nacional de Enfermagem Anna Nery (MuNEAN) vai realizar no dia 17 de maio (sábado) a I Mesa Redonda Comunicação e Cultura, que vai discutir as técnicas da comunicação organizacional e as ferramentas utilizadas na gestão da comunicação integrada, para maximizar resultados dentro das instituições.

Para compor a mesa, foram convidados o jornalista e especialista em Marketing e Comunicação para o mercado, Lício Ferreira; a RP e Mestre em Administração Estratégica Rose Gatelli ; e a produtora cultural Thelma Chase, que também é coordenadora do setor artístico do Centro de Culturas Populares e Identitárias do Estado da Bahia.

O evento, que é voltado para gestores, assessores de comunicação, jornalistas, relações públicas, publicitários, pesquisadores e estudantes da área da Comunicação, acontece das 9h às 12h. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail: [email protected]

SERVIÇO

  • O quê: I Mesa Redonda Comunicação e Cultura do MuNEAN
  • Quando: 17 de maio (sábado), de 9h às 12h
  • Onde: Museu Nacional de Enfermagem Anna Nery (Rua João de Deus, nº 5 – Pelourinho, próximo ao SEBRAE do Terreiro de Jesus)

 

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Fórum discute legados comunicacional e cultural da ditadura cívico-militar

Com o tema “Ditadura, Autoritarismo e Democracia”, O III Fórum do Pensamento Críticoreuniu em Salvador renomados pensadores do país, para promover reflexões e discussões acerca dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964 e os 31 anos da ‘Campanha das Diretas Já’, além de questões atuais postas pela sociedade civil na construção da democracia. Mostras de filmes e documentários de curta e longa-metragem, palestras, lançamento de livros e exposição de fotos integram o evento realizado no Teatro Castro Alves entre os dias 24 e 28 de março.

Na quarta-feira (26), as atividades compilaram informações sobre a história contemporânea do Brasil e da Bahia. Na mesa “Afasta de mim esse cale-se: as heranças da ditadura na cultura e comunicação brasileira”, os palestrantes debateram o cerceamento da liberdade de expressão que influenciou a produção a cultura e comunicação no Brasil. Na medida em que toda a produção cultural era avaliada por agentes autorizados antes de se tornarem públicos, artistas e jornalistas utilizavam recursos estilísticos para exprimir suas ideais e escapar da vigilância.

Foto: Fundação Pedro Calmon

Para a jornalista Ana Arruda Callado, primeira mulher a chefiar a redação de um jornal no Brasil, a censura está no DNA da imprensa brasileira. “Pressões públicas, interdições e censura à imprensa não são nem de longe invenção brasileira. Aqui, a censura veio antes da imprensa, como testemunham as cartas régias da corte portuguesa, que proibiam a impressão de livros e jornais no Brasil. Nosso país tem mais tempo de repressão do que de liberdade. O Estado Novo foi quem criou o DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda], que pagava mensalmente os jornais. O empresariado sempre sustentou os regimes ditatoriais, não à toa, eu chamo essa recente ditadura de ‘empresarial-militar”.

A escritora fez duras críticas ao modelo comunicacional herdado dos períodos de supressão das liberdades no país. Segundo Ana Callado, a estrutura gestada configurou um cenário “perigoso para a democracia”. “No Rio de Janeiro, podemos citar dois maiores jornais: O Globo e O Dia, que publicam a mesma coisa. Antes, as pessoas escolhiam um jornal de acordo com sua ideologia. Agora, a opinião desapareceu, dando lugar à neutralidade. E eu digo que neutralidade não existe. O jornalista precisa tomar partido. Nós ainda não conseguimos apagar muitos aspectos desse modelo perverso de comunicação pensado para o Brasil. O modelos que eles ‘bolaram’ está aí”, denuncia.

Na análise do sociólogo Venício Arthur Lima, o sistema de comunicação vigente no Brasil antecede à ditadura e permanece, em alguns casos, até mais cristalizado do que antes. Para ele, há um cerceamento da liberdade de expressão cuja responsabilidade não é mais do Estado, mas do interesse privado, que se articula via Congresso Nacional, como nos processos de concessões das principais emissoras de rádio e TV do país – para negar a renovação, 2/5 do Congresso precisa votar.

“No Brasil, existe uma estrutura de mídia predominantemente privada que tem suas características e consequências. Embora se consolide no período imediatamente anterior e durante o golpe, essa estrutura vai além do regime político. Os atores políticos que são representantes desse esquema têm conseguido, através de maiorias legislativas no Congresso Nacional, impedir a alteração do quadro legal que permite a manutenção da situação atual. Curiosamente, a lei que rege a radiodifusão no Brasil tem 52 anos [Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1962]. Do ponto de vista tecnológico, isso é nonsense. Qualquer pessoa de fora do país acha que é brincadeira”.

Foto: Fundação Pedro Calmon

O país possui um dos sistemas de comunicação mais concentrados e verticais do mundo. Mas, ao mesmo tempo, é um dos mais desregulamentados. Perguntado sobre o que poderia ser feito para organizar o sistema de comunicação nacional, Venício Lima, dispara: “Um marco regulatório para a área, que é uma reivindicação que até as pedras da rua sabem, só que não acontece porque, ao contrário do que está acontecendo em alguns países da América Latina, o Estado brasileiro não enfrenta politicamente os grandes grupos e seus interesses”.

Na mesa vespertina “O descompasso do proibir: cultura e contracultura na Bahia”, nomes como Renato da Silveira, antropólogo perseguido pelo regime, o doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, Paulo Miguez, o jornalista Bob Fernandes e o músico Paulo Costa Lima discutiram a forte censura imposta às expressões de artistas, intelectuais e profissionais da comunicação. Na Bahia, a segunda Bienal Nacional de Artes Plásticas foi fechada no dia seguinte a sua inauguração, tendo dez obras consideradas subversivas pelo regime.

Entre os dias 29 de maio e 7 e setembro deste ano, a 3ª Bienal de Artes Plásticas da Bahia, construída em torno da indagação “É tudo Nordeste?”, vai fechar uma lacuna de 46 anos na arte baiana. Durante 100 dias, mais de 30 espaços culturais da capital e do interior receberão exposições, performances, ações educativas e uma programação cultural.

“Temos um hiato de quase cinco décadas e um ‘dever de memória’. Durante 46 anos, os acontecimentos desapareceram do cenário cultural baiano. Nossa primeira missão foi tentar constituir um arquivo oral, porque a única memória que a gente tem são os depoimentos das pessoas que passaram por aquele momento. Já temos cerca de 20 horas de arquivo gravado sendo recuperado. Então, essa bienal não é uma operação nostálgica, mas se coloca na posição de fórum, de espaço político”, revela Marcelo Rezende, diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) e um dos curadores bienal.

Retrocesso

Na contramão das históricas lutas pela liberdade de expressão e contra a censura, o governo brasileiro pretende aprovar um projeto de lei que endurece as penas para presos em manifestações de rua, intensificadas a partir de junho passado. Enquanto não há mudanças na legislação, o estado de São Paulo foi pioneiro ao criar um órgão específico para tratar esses casos, com Justiça “mais ágil”.

“O Brasil não cumpre os tratados internacionais no âmbito dos direitos humanos. Não dá para comemorarmos avanços porque os retrocessos são gritantes. A segurança pública é um capítulo à parte sobre como não conseguimos superar o esquema da ditadura”, lamenta o conselheiro da Comissão Nacional da Anistia, Manoel Moraes, que criticou as tentativas do de reprimir os protestos.

O cientista político pernambucano usou uma metáfora que ele chama de “Estado-Aquário” para classificar o comportamento do governo brasileiro. “Nós somos como peixinhos num aquário. Podemos enxergar a nossa volta, mas não temos liberdade além dos limites do vidro. O Estado proprõe um estado de direito, desde que você seja controlado. Ainda dentro desse aquário, existem aqueles que sonham, que lutam, que são os ‘bagrinhos’. São essas pessoas que dão sentido à luta pelos direitos humanos”.

Por Joseanne Guedes

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Salvador sanciona conjunto de leis que regulamentam política cultural

O marco legal vai permitir a adesão de Salvador ao Sistema Nacional de Cultura e dar um novo panorama para a cidade neste setor, atendendo a reivindicações antigas da população soteropolitana. O município terá a possiblidade de uma atuação articulada junto ao Ministério da Cultura, com princípios e diretrizes comuns.

Câmara Municipal/ Foto: arquivo

Na manhã desta segunda-feira (06), o prefeito ACM Neto sancionou, na Câmara Municipal de Salvador (CMS), sete projetos de leis que regulamentam a política cultural do município. Na ocasião, foi instituído o Sistema Municipal de Cultura (SMC). As leis dispõem sobre a arrecadação e a encampação de imóveis urbanos abandonados por falta de pagamento dos tributos ou não cumprimento da função social, instituição da Festa Popular e Cultural de Pirajá e sua inclusão no calendário oficial de eventos, o aporte de recursos para o orçamento da cultura e promovem a revitalização do Centro Histórico.

Entre os pontos do Sistema Municipal de Cultura estão: adoção de ferramentas que visem a proteção e estímulo à preservação do patrimônio cultural de Salvador; composição de Conselho Municipal de Política Cultural e o reconhecimento, valorização e fomento às manifestações que expressam a diversidade étnica/racial e cultural da primeira capital do Brasil.

“O objetivo é trazer movimentação econômica para a cidade, trazer a ascensão social de muitos que hoje vivem em situação de pobreza, mas que tendo oportunidade através de projetos bem estruturados no setor cultural podem ter um caminho para empregabilidade”, afirmou o prefeito durante a solenidade, quando anunciou a requalificação da casa de Jorge Amado, no Rio Vermelho, numa parceria com a fundação que cuida do acervo do escritor, do Cine Excelsior, além da criação de museus em homenagem a Carybé, no Forte São Diogo, e Pierre Verger, no Forte Santa Maria.

Para o presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM), Fernando Guerreiro, o evento é uma vitória da classe cultural e artística da cidade. “Esta era uma antiga dívida que o poder público municipal tinha junto à população. A partir de agora, a cultura será devidamente regulamentada, o que legitima a sua importância para o desenvolvimento de Salvador”, destacou.

A sanção das leis é resultado de debate realizado entre o governo e a sociedade, com a realização de três audiências públicas ao longo de 2013 e o engajamento de vereadores de vários partidos, que apresentaram um total de 15 emendas, sendo todas elas acatadas no texto final dos atos administrativos.

Sistema Municipal de Cultura – A nova lei vai garantir políticas públicas culturais para a cidade, assim como permite que o município esteja apto para receber investimentos no setor. No começo no ano, a prefeitura já havia assinado, junto ao Ministério da Cultura, um acordo de cooperação técnica para que Salvador fosse integrada ao Sistema Nacional de Cultura. Para isso, foi preciso apresentar um projeto de lei que criasse a ferramenta.

Participaram do evento autoridades, secretários de Estado nas áreas de Turismo e Cultura, vereadores e representantes da cultura baiana/Foto: Antonio Queirós

“Nossa política cultural não dialoga apenas com os elementos simbólicos da nossa cultura, mas está voltada para levar o movimento para os bairros da cidade, como foi o projeto Boca de Brasa e os editais de cultura, que beneficiam pequenas manifestações. Com o sistema municipal, agora temos uma política cultural estruturada, com recursos assegurados, projetos definidos, e com a participação da sociedade. O sistema vai dividir a responsabilidade pelas decisões com a sociedade, já que a Prefeitura terá apenas papel de mobilização e intermediação do debate e de execução posterior”, acrescentou o prefeito.

Imóveis e preservação – As leis que versam sobre a arrecadação e a encampação de imóveis urbanos abandonados e instituem normas de proteção e estímulo à preservação do patrimônio cultural atuarão para beneficiar o Centro Histórico, onde há cerca de 1,5 mil edificações nessa situação. A partir disso, a prefeitura poderá tomar posse do imóvel por falta de pagamento dos tributos ou não cumprimento da função social, com objetivo de dar funcionalidade a essas edificações que, por vezes, são usadas para especulação imobiliária.

Com informações do G1 e Criativa On Line

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